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sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Retorno do Retorno

Nossa... o que é o tempo? E como muito tempo passa e pouco tempo parece?
Faz tempo que não posto? A vida correu e os focos foram outros... Mas não se perde tempo quando tem-se tempo para o tempo!

Nesse tempo, portanto, reabro recordações, vivências e aprendizados do tempo de 2013... mas também aquilo que o tempo de 2014 me proporciona e aquilo que o futuro tempo me trará.

O que sei é que Timor-Leste não se perde no tempo de minha vida, muito pelo contrário, foi decisivo por todo o ano de 2013 e me fez um homem muito melhor do que o tempo de antes... por isso continuo.

Não é apenas um  trabalho, mas uma experiência profissional, humana e espiritual em que um país com tão poucos recursos tem me ensinado e me melhorado.

Ensinar é um desafio. Ensinar na escassez é um desafio maior. E eu estou aprendendo a ensinar na escassez... e isso tem me feito muito feliz!

Meu trabalho tecnicamente é direcionado para a formação de professores que atuam no ensino básico, secundário e superior. Na prática é um grande laboratório de vivências em que eu, meus colegas brasileiros e os docentes timorenses temos estudado e buscado caminhos para a Educação em um país que está se reconstruindo dia a dia.

Também participo de ações de políticas públicas para, junto com meus parceiros, respaldar as necessidades que surgem... e que não são poucas.

O trabalho do educador que tem brilho nos olhos ao fazer a educação acontecer é sempre uma corda bamba e que geralmente nos provoca reações bem polarizadas. Ou seja, podemos nos desesperar ao ver que educação custa caro e não é prioridade de qualquer governo, e reclamar (justamente!) e até desistir. Ou militar nos espaços adequados, mas arregaçar as mangas e tentar fazer algum trabalho com qualidade. Não tenho certeza ainda, mas escolhi a segunda opção pois ela me faz bem, pois vejo resultados palpáveis no cotidiano educativo.

E quanto tempo levaremos para resolver os problemas da Educação em Timor? E no Brasil? Com certeza algum tempo... com certeza não o tempo que é transformado em dinheiro... em produção de mercado... com certeza um tempo que nos deixaria ansiosos, angustiados, impacientes...

Mas se tem uma coisa que Timor-Leste tem me ensinado é a lidar com o tempo de outra forma... e o educador sabe que cada um tem seu tempo de aprender... e sabe que não se pode determinar o que cada um DEVE aprender, muito mesmo limitar o tempo desse aprendizado... Portanto... vou vivendo o tempo que me é dado pelo próprio tempo... e estou dando tempo para que a vida se desenrole em seu tempo... e não há melhor cronologia que o "quando", o "enquanto" e o "agora".

Quero que esse homem que um dia voltará de Timor, volte com tempo e em tempo de continuar suas transformações internas... respeitando mais o seu próprio tempo... e entendendo com mais força a ideia que, de tempos em tempos, me toma os pensamentos: Qual o real sentido disso tudo?

Beijo no coração!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ai funan barak


Diak ka lae, kolega sira!

Assim como em língua portuguesa, a expressão de agradecimento “obrigado”, se tomada ao pé da letra, não faz o menor sentido, isso transposto para a língua tétum de Timor, igualmente perde o sentido literal, ganhando significado em seu uso social.
No entanto, em uma das minhas aulas de língua tétum e cultura timorense, tive a oportunidade de receber a visita de um professor timorense que veio compartilhar algumas ideias com a turma e, dentre elas trouxe-me mais uma das pérolas de Timor.
Explicou-nos, o mestre de Baucau, que no passado, quando o tétum não sofrera ainda as influências e interferências da língua portuguesa, os timorenses possuíam uma expressão muito singular para manifestar agradecimento em situações desse tipo. Diziam “ai funan barak” que, literalmente, significa “muitas flores”. Isso, acompanhado do gesto das mãos fechadas palma com palma trazidas junto ao coração, e o olhar de profunda gratidão buscando a alma da pessoa a quem se agradece, através de seus olhos, confirgura um dos maiores poemas que já “li” por aqui e que traduzo abaixo:

“Por você ser...
Por ter feito...
E pelo que poderá fazer...
Minha alma retribui
Com muitas flores
Que meu coração produz!”

Ai funan barak, kolega sira!

sábado, 13 de abril de 2013

Reflexões de um bimestre (quase!)


Maun sira, mana sira, diak ka lae?

Importante e impressionante como o sentido de tempo perde o sentido quando o foco de nossas vidas aponta para direções surpreendentes. Estou há quase dois meses em Timor e vivi já aqui mais de seis meses de acontecimentos, aprendizagens de vida e desenvolvimento humano e profissional. Meu trabalho é de gestor, aparentemente, mas de educador de fato. E na educação não há tempo determinado, mas processo contínuo de aprendizagens, encantos, desencantos e crescimento. As etapas que estabelecemos nesse processo são meramente psicológicas, para que percebamos os degraus que já galgamos (e os que ainda estão por vir!).
Nesse tempo intenso, eu já tive oportunidade de auxiliar quem não conhecia a realidade desse país, desse povo e as marcas, visíveis ou não, que ainda estão por cá. Lemos e discutimos sobre os nossos ofícios. Nos submetemos às normais adaptações de ego pelas quais passam todos os seres humanos que se dispõem a trabalhar em equipe. Ressignificamos nossas vidas em um novo contexto, com novos personagens, novos enredos e novas expectativas.
E o mais interessante, talvez, tenha sido viver tudo isso após um período de três meses em “meu” país, “minha” cidade, com os “meus”! Num estágio providencial de vivência no ambiente que, no passado, eu considerava o mais adequado possível, e que se configurou sufocante e restrito, motivando as mudanças que me trouxeram ao “outro lado do mundo” ano passado.
Algumas verdades de outrora são hoje meras lembranças da pequenez do pensamento humano que insisti em manter como carapaça de segurança – irreal – mas confortável que tinha. Os amores, os valores e os temores são configurados de forma diferente hoje, mantidos seus teores, mas nunca seus horrores! E aquilo que eu me impunha possessivamente como “meu”, já não está tatuado na bolha que me convinha viver dentro.
Timor fez eu perceber que quem se aventura no campo minado da Educação deve estar despido dos dogmas satisfatórios da vida moderna e me fez entender que os conceitos de “país”, “lugar”, “tempo”, “amores”, entre outros, são tão transitórios quanto convencionais e que a ideia de que são nossos pilares de equilíbrio também é invertida. Nós somos nosso próprio pilar e isso não é egoísmo ou isolamento, mas um aspecto elucidativo do nosso papel responsável por nós mesmos, sem pré-requisitos ou responsabilidades coadjuvantes.
Timor, cada vez mais, me transmite a sensação de que precisamos de muito pouco para sermos felizes e para entendermos que dignidade está muito mais relacionada com a forma como organizamos nossas vidas do que com os impedimentos que estabelecemos para que não nos sintamos bem!
“Professor, se é em português, em bahasa indonésio, em tétum ou em inglês que vamos ter que conversar não importa, o que importa é que os corações das pessoas consigam conversar sem medo!” Assim me falou um professor de escola secundária (Ensino Médio)... assim ele me desmontou... e me reconstruiu!

Loron diak ba hotu-hotu!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Timor... novamente Timor!



As férias em meu país foram necessárias por questões diversas relativas aos meus sentimentos e às minhas escolhas de vida. Rever família e amigos recarregou minhas baterias emocionais, me fazendo sentir-me mais família e mais amigos de todos e principalmente percebendo que, após quase um ano longe do cotidiano de todos eles, a vida de cada um transcorreu como tinha que ser, assim como a minha também, o que reforça a ideia de que não somos tão indispensáveis assim como nosso sentimento egoísta e orgulhoso nos faz crer. Isso é muito bom!
Igualmente, o fato de a distância não ter enfraquecido nem apagado os laços que nos unem é importante para perceber que amor e carinho são sentimentos sublimes e a nossa capacidade de amar transcende questões geográficas e os sentidos físicos humanos. Continuamos amando, independente de estarmos perto ou não. Podendo, inclusive, potencializar esse amor, ou transformá-lo em outras variações de amor, muitas que eu ainda estou em fase de descoberta.
Uma vez que é muito mais fácil decidir o que não queremos para nossas vidas, fica a eterna reflexão sobre o que nós queremos... e voltei do Brasil sem definições quanto à profissão, aos futuros empreendimentos e à organização de vida. O sistema me convoca aos hábitos de antes, com volume de trabalho enlouquecedor e ritmos de vida duvidosos, quase insanos. Também, pelo conforto e pela compensação que isso promove, me incita a estar perto daqueles que colorem minha vida de forma significante.
Entretanto, perceber que há outros possíveis sistemas que me proporcionam outras escolhas e caminhos é desafiador e intrigante. O diferente fascina e assusta com a mesma potencialidade! Mas que bom que tenho escolhas e transformar isso em um problema é, no mínimo, vexatório!
Sendo assim, resolvi seguir meu instinto taurino, sensível ao que me faz sentir-me útil e bem, lutador por causas que acredito e, acima de tudo, buscando aprender muito... sempre... e tanto!
Timor, mais uma vez, me chamou e eu vim! Porque acredito profundamente nas consequências positivas das transformações profissionais e pessoais que estou passando aqui... Porque não me sinto tendo finalizado um trabalho iniciado ano passado e, portanto, com aquela sensação de que há algo ainda a ser feito... Porque o que vivi por aqui ano passado mexeu com meus dogmas, convicções e raízes, fazendo-me perceber que minha vida é muito mais do que era... Porque a bolha do comodismo em que todos nós vivemos foi furada e o ar que respiro agora é outro... Porque preciso disto tudo para sentir-me vivo e fazer a vida valer muito a pena...
Pelo professor que escolhi ser... pelo homem que decidi construir em mim... pelo ser humano que me esforço em me constituir... Timor-Leste novamente é a escolha deste ano... e que seja um ano intenso, como está aparentando... mas que eu o finalize com mais alegria do que a que sinto em iniciá-lo.
Kolega sira hau hadomi  imi hotu!
Aifunan barak!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Retorno


E quando um ciclo se fecha é porque outro está iniciando. Conviver em Timor foi uma das experiências ricas que trarei comigo junto às emoções que gostaria de reviver, em breve. Energias que compartilhei que me fizeram melhor do que quando aqui cheguei. Sensações estranhas que me forçaram a buscar outras alternativas. Campo de batalha que me ensinou a guerrear por aquilo que acredito. Adversidades que me fizeram capaz de perceber o quão múltiplos nós podemos ser. Lugares, pessoas, histórias que ficaram escritas no livro da sabedoria, para serem consultadas a todo instante e promover mais sabedoria. Uma terra quente, no calor do sol nascente e nas efervescências humanas que nem a vida apaga com o esquecimento. Timor foi um ano, uma década, uma vida... cada dia se desdobra em três, ou em mil... cada minuto foi um leque de oportunidades e ensinamentos que, hoje, eu percebo o quanto me fizeram bem.
O professor leva consigo as marcas de uma trajetória complicada e ao mesmo tempo fascinante. O homem carrega a certeza da força de vontade e a necessidade do ter porque lutar. O espírito mais leve e sereno leva as lições de paciência, tolerância, pensamento em foco e muito entendimento com o equilíbrio interior. O Xandy leva consigo mais uma cor em sua aquarela, mais um carimbo em seu passaporte, mais inspiração para sua poesia, mais alimento para seus pensamentos e imensas toneladas de energias positivas estocadas para a continuidade de sua trajetória... ah! Leva também a Camila, é claro! Parte essencial de tudo de melhor que aqui aconteceu.
O professor deixou sementes espalhadas em campo fértil. Apontou caminhos e sugeriu as armas. O homem deixou suas marcas especiais naqueles que a vida pôs em seu caminho. O espírito deixou temperança e tranquilidade nos laços feitos. O Xandy deixou amizades, sorrisos, agitos e aquele gostinho de “quero mais”!
Eu só sei que, de acordo com o que me disseram antes de vir, posso agora, após rever o caminho percorrido, declarar que fiz a melhor escolha vindo para Timor e que com a máxima certeza... EU FIZ A DIFERENÇA AQUI!
E, em 2013m, haverá muita vida intensa a ser lida, estudada e praticada... Que Timor me espere, porque já estou chegando lá!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mosaico V


“- Professor, eu acho que vou escrever assim no meu texto... ‘os livros são janelas que nos mostram o mundo’... o que o senhor acha?
- Eu acho que podemos escrever ‘os mundos’ em vez de ‘o mundo’, pode, professor?
- Professor, eu acho que poderíamos escrever que ‘os livros são portas’ por que janelas é para vermos, mas portas é para entrarmos e conhecermos as coisas e visitarmos as pessoas.”
(nessa hora a fala do professor dá lugar a lágrimas de felicidade)


“Eles têm uma séria dificuldade em perceber conceitos abstratos, linguagens abstratas, pois não alcançam o significado real das coisas e não conseguem perceber nada além daquilo que está concretamente ao seu redor. Imagino que vocês, professores de Língua Portuguesa, devem ter muitas dificuldades para conseguir o mínimo de comunicação e entendimento dos textos. Por que os textos todos possuem linguagem abstrata e quase impossível para eles.”

(nessa hora a fala do professor dá lugar a lágrimas de cansaço e desânimo)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mosaico IV


“- Vocês já entraram em uma livraria antes?
- Não, professor!
- E por quê? Não se paga para entrar em livrarias, além de se poder conhecer os livros, saber sobre outras culturas e pessoas. Vocês não acham isso importante?
- Sim, professor, mas nós pensamos que era um lugar para os malais e não para os timorenses entrar.
- Mas por quê? Tudo o que está em Timor é dos timorenses em primeiro lugar. Vocês podem e devem entrar nas livrarias sempre. Olhar os livros, folheá-los, ler alguns trechos e conhecê-los.
- Os livros são muito caros, professor. Não podemos comprar.
- E qual é o valor que vocês podem pagar para comprar livros?
- 5 ou 10 dólares, professor.
- Muito bem, então se cada um da turma der 5 dólares nós conseguiremos comprar 40 livros de 5 dólares, ou 20 de 10 dólares e colocaremos nesta estante em nossa sala, e os livros serão de todos. Com 5 dólares todos terão direito a 40 livros diferentes! No próximo semestre fazemos a mesma coisa e a quantidade de livros dobrará. Se vocês conversarem com os colegas de outras turmas para fazerem o mesmo, teremos muito mais livros e vocês poderão emprestar a eles e eles emprestarão a vocês!”

(Os olhos brilharam com a possibilidade empreendedora... nunca haviam pensado serem capazes disso... a semente foi jogada e eles começaram a se mobilizar)

“Não consigo ver grandes mudanças em Timor-Leste. As pessoas de aqui são muito acomodadas, sem iniciativas e sem vontade de um real desenvolvimento. Nem sequer falam sua língua oficial. E agora ainda pretendem que a ONU de cá saia, pois acreditam ter autonomia. Nem sequer sabem o que é ter autonomia. O que salva por aqui são as cooperações internacionais. Sem elas não sobrevive-se por cá.”

(Sementes como estas são jogadas a todo instante em Timor, a ponto de atingirem uma força que chega as raias da verdade... só que ao contrário!)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mosaico III


“- Professor, muito obrigado pela oportunidade de visitar o Museu da Resistência. Nem parece Timor-Leste! Tudo muito bonito, muito explicativo e muito real.
- Mas por que não parece Timor? É a história de vocês! Não entendi.
- Está tudo muito bonito. Muito organizado. Parece que é outro país!”

(E brilhavam os olhos do rapaz ao perceber seu país com um tratamento até então dado apenas aos países estrangeiros... algo bonito... admirável... distante... e, agora, ali... presente... Timor!)

“São tão rústicos e simples que custa-se a crer que conseguiram sair dos conflitos. A forma como se portam, as unhas compridas dos homens, a cuspir no chão... as risadas estridentes... tudo parece comportamento quase animal.”

( E meus olhos brilhavam num misto de ódio e pena daqueles que pararam no tempo sem perceber que agora a realidade é outra.)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mosaico II


“- Então, Agostinho, faz assim... reescreva esse seu texto, com bastante atenção às minhas sugestões sobre os plurais, os verbos e a escrita de algumas palavras. As ideias estão ótimas e você entendeu o que eu havia perguntado, agora é só fazermos esses ajustes no texto e ficará perfeito. Parabéns!
- Professor, muito obrigado pelas correções (beija a mão do professor). Vou fazer as correções que o professor pediu e depois posso colocar no mural?
- Claro, Agostinho. Sãos suas ideias, mas todos nós temos o direito de conhecê-las, se você quiser compartilhar conosco. Sem dúvida é muito importante.
- Se eu digo as minhas ideias e se todos os colegas também digam as suas ideias teremos muitas ideias para discutir e escolher as ideias que serão de todos nós, professor. Assim podemos ajudar Timor-Leste!”
(Na sua beleza e simplicidade, um aluno me ensina os princípios da democracia)

“Este povo é preguiçoso e não quer fazer nada para que este país saia da pobreza que tem. Se não fosse os estrangeiros aqui, nós portugueses, os australianos, os europeus de um modo geral, não sei o que seria deste país. Os alunos não possuem problemas linguísticos apenas, mas cognitivos. Não conseguem aprender adequadamente e nem querem fazer um esforço, caraças!”
(Na sua grosseria e prepotência, uma professora me ensina os princípios do colonialismo)

domingo, 4 de novembro de 2012

Mosaico I


“Professor, os malais só tem que vem pra Timor-Leste para ajudar os timorenses. Se não for para ajudar eles não devem de vir. Porque Timor-Leste é a nação mais nova do mundo e precisa de ajuda das nações irmãs para se desenvolver. Timor-Leste agora é terra de paz, de construção. Por isso os timorenses dizem ‘Adeus conflito, bemvindo desenvolvimento’, para que a nação timorense em conjunto com as nações irmãs da CPLP possam seguir adiante, crescer e desenvolver para os timorenses.”

“Nós, portugueses, temos orgulho de manter ótimas relações com as ex-colônias. Todos têm a ganhar com isso. Nesse momento, Portugal passa por uma das maiores crises econômicas de sua história e as ex-colônias são oportunidades de trabalho muito importantes para nós. Em contrapartida, nós podemos ajudá-las a tornarem-se nações melhores, se calhar, bem desenvolvidas!”

(Confronto de falas e falares que despertam fortes sentimentos)

sábado, 13 de outubro de 2012

Relatos Timorenses X


“Eles me levaram para uma sala com pouca luz. Eu estava há três dias sem dormir direito depois de que me levaram para aquela prisão em Jakarta. Tiraram a minha roupa e me sentaram em uma cadeira de ferro no meio de um chão com água. Ali colocaram fios de eletricidade nos pés da cadeira e cada vez que me faziam uma pergunta, davam choque elétrico em mim. Eu berrei muito, mas não disse nada que eles queriam. Depois eles botaram os pés de outra cadeira em cima dos meus pés e sentaram em cima. Continuaram as perguntas, mas não respondi.  Naquela altura eu já estava muito cansado e ferido. Então eles colocaram um ferro que estava muito aquecido e vermelho como fogo em minhas costas, bem aqui, professor (virou-se e mostrou-me as marcas de queimaduras). Mas eu não respondi nada, professor. Porque se queremos ser resistentes aos dominadores e defender o nosso povo, não podemos ser fracos... não podemos desistir... precisamos merecer a confiança de nosso povo e lutar até o fim. Eu não precisei morrer, mas alguns colegas morreram... muitos morreram, para que Timor-Leste existisse hoje.”

(Este homem é professor de Direitos Humanos em duas universidades timorenses além de conduzir uma instituição que auxilia os jovens timorenses quanto à escola e o trabalho informal)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Relatos Timorenses IX


“Professor, quando alguém vai casar tem que pagar o barlaque que é da nossa cultura. É uma forma de valorizar a mulher. O homem e sua família dão o barlaque para a família da mulher. Para pagar o barlaque deve se dar búfalos, porcos, cabritos e dinheiro. Cada distrito tem um valor diferente para o barlaque. As famílias combinam os valores e acontece a cerimônia de entrega do barlaque e para fazer o compromisso do casamento (noivado). Toda a família do noivo e toda a família da noiva são convidados, também os amigos e outros convidados. Acontece as orações e os votos do noivo e da noiva. E acontece uma refeição com muitas comidas e bebidas para todos. É muito bonito e importante. Depois passa o tempo para preparar o casamento e os noivos se casam com a bênção de Deus, como tem que ser.
- Então o barlaque tem valor diferente dependendo do distrito timorense?
Sim, professor. O distrito de Lospalos é o mais caro de barlaque. (muitos risos!) Para casar com as mulheres de lá os homens tem que ter muito dinheiro. (mais risos!) As mulheres de Lospalos são mais valiosas! (risos altos!)
- E onde é que é mais barato o barlaque?
Em Oécussi, professor. Lá é distante. Pouca gente quer ir para lá casar. Então é mais barato! Coitadinha das mulheres de Oécussi, professor! (muitos risos)
- Não parece a vocês que os homens compram as mulheres para serem suas esposas e depois elas têm que obedecer a eles durante toda a sua vida?
Não professor, a mulher que recebe o barlaque é valorizada... foi escolhida especialmente. Em troca ela dedica-se ao marido, aos filhos e ao lar. O barlaque é da nossa cultura, professor. É muito importante para construir as famílias de bem.
- E os meninos, o que pensam do barlaque?
Eu quero, professor, trabalhar e poder ter condições de pagar o barlaque de uma mulher que é muito especial para mim. Um homem que não consegue isso professor, é um coitadinho. Não cumpriu seu dever de homem de bem.”

(Uma de minhas aulas com alunos de Geologia e Petróleo sobre as questões culturais timorenses e que, como tantas outras aulas, balançaram minhas verdades e me transformaram em um grande ponto de interrogação!)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Relatos VIII


“- Eles vinham em bandos, entravam em nossas casas, destruíam os móveis e as poucas coisas que havia. Quebravam as janelas e levavam as pessoas para fora. Algumas eles matavam, outras eles levavam presas. Por fim colocavam fogo nas casas, nos lençóis e nas roupas dos armários. Nossos animas e verduras eles levavam para alimentar os outros soldados. Meu pai eu vi morrer no terreno ao lado de nossa casa quando ele tentou impedir um soldado de bater em minha mãe. Meu irmão mais velho foi levado pelos cabelos para dentro de uma carrinha e eu nunca mais vi. Eu, minha mãe e minhas irmãs fomos para um campo de prisioneiros. Lá eu lembro que tinha muita fome e que fiquei doente.  Um dia a comida era casaca de batatas cruas dentro de uma bacia com água quente. Os soldados chamaram de sopa de legumes. Eu fui levada para um posto hospitalar da cruz vermelha. Lá eu me recuperei e só muito tempo depois eu reencontrei minhas irmãs.
- E  sua mãe? Não a viu mais?
- Não! As minhas irmãs disseram que ela ficou doente e morreu no campo dos prisioneiros. Seu corpo foi queimado junto com os outros doentes que morreram. Assim os indonésios faziam para não espalhar a doença para as pessoas.”

(Eu me segurava para não chorar, ela, professora universitária, colega timorense, contava sua história com um orgulho de ter algo que comprovasse que era especial, afinal, ela havia sobrevivido a tudo aquilo e, hoje, estava se preparando para desfrutar de uma bolsa de estudos para seu doutoramento em Portugal)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Relatos Timorenses VII


“O governo só pensa em dinheiro. Nas riquezas do petróleo, da Austrália e dos países desenvolvidos. O governo não pensa no povo. E foi o povo que fez o governo. As pessoas que fazem o governo hoje são pessoas do povo. Mas que estudaram fora de Timor-Leste. Tiveram oportunidades  e saíram daqui. Muitos fugiram na dominação Indonésia e depois voltaram. Pessoas que puderam conhecer ciência e tecnologia. Fazer cursos de Mestrado e Doutoramento e voltaram para Timor-Leste depois da independência. Essas pessoas acham que são mais importantes que o povo. Falaram que queriam ajudar o povo timorense e viraram políticos, chefes, ministros e secretários de estado. E parece que esquecem do povo e das dificuldades do povo. Mas o povo timorense não vai deixar ser assim por muito tempo. Demorou 25 anos para tirarmos a Indonésia de Timor-Leste com o sangue dos nossos heróis. Se o povo não perceber mudanças positivas, vai também tirar daqui o governo que não faz o que precisa fazer.”

(Assim me disse um professor da universidade, líder comunitário e que foi preso e torturado durante a ocupação indonésia)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Relatos timorenses VI


“ Eu não sei falar muito bem Língua Português. No tempo da Indonésia era proibido então os timorenses não podiam falar Língua Português. Na escola primária e na secundária só falava Língua Tétum e Língua Indonésia. Agora na escola da universidade tem que falar Língua Português. Mas tem professores que não falam. Tem professores que dá aulas em Língua Indonésia, porque dominação Indonésia. Tem professores que dá aulas em Língua Tétum, porque língua oficial Timor Lorosae. Tem professores que dá aula em Língua Inglês, porque ONU e porque Austrália. Agora tem professores que dá aula em Língua Português, porque de novo os portugueses estão em Timor-Leste. Também o governo timorense decidiu que Língua Português é também língua oficial de Timor-Leste. Professor, qual outro país vem para Timor-Leste e vai obrigar os timorenses a falarem sua língua? Aqui é sempre assim!”

(Um aluno, em uma de minhas aulas em que estávamos discutindo o porquê do ensino de português em Timor-Leste)

sábado, 29 de setembro de 2012

Relatos Timorenses V


“Eu só pude ir para os estudos depois de 2002, quando chegou a Independência. Então, àquela altura, fiz meus estudos secundários e estudei minha Licenciatura no Liceu de Díli. Trabalho na escola primária e secundária ensinando os direitos humanos, a língua tétum e a moral e a cidadania. E hoje, professor, depois de tanto sacrifício, consegui ser um professor da Universidade! É com muita alegria que consegui chegar nessa posição importante. Ainda não tive condições para fazer o curso de Mestrado, mas vou fazer um dia. É uma vontade minha, como um sonho, poder estudar mais para ajudar os jovens de Timor-Leste. Mas, professor, ainda não sei usar o computador. Será que o senhor poderia me ensinar? Eu posso ir à sua casa, aos sábados, e o senhor me dá umas aulas para eu poder progredir usando o computador. Pode, professor?”

(Assim comecei a dar aulas de “informática” a um professor timorense nas tardes de sábado. Na primeira aula, ele trouxe-me um presente: um “tais”, que é um tecido típico cheio de histórias e encantos. Desde o pedido, passando pelo presente ganho, até a escrita desse relato, tenho os olhos rasos d´água. A simplicidade da vida diante da mediocridade humana tem me trazido grandes lições. Gratidão sempre!)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Relatos IV


“Professor, eu não concordo com religiões que gastam milhões na construção de seus templos, enquanto muitos de seus fiéis passam grandes necessidades. Uma das coisas que devemos aprender é a simplicidade, pois não há quem seja mais que ninguém, professor. Eu até quis seguir a vida religiosa, mas não posso me comprometer com algo que não concordo. Por isso sigo a minha crença, a minha fé e pratico aquilo que aprendi nas filosofias. Tento ajudar os pobres e necessitados, ensinando-os a plantar, a conviver, a valorizar sua terra e sua gente e a viver em irmandade, compartilhando o que têm e praticando a alegria. Aqui em Timor-Leste muito se lutou pela Independência... muitos morreram por uma ideologia de vida e agora o que vejo é políticos querendo prender novamente o seu povo em um sistema que não é justo para todos. Nossa liberdade é abraçarmos nossa terra e nossa gente. É cuidarmos de nossos doentes, de nossas crianças, de nossos homens e mulheres. Darmos à terra aquilo que quisermos dela e vivermos em alegria com aquilo que temos. Somos todos irmãos e precisamos mostrar essa nossa força, que é maior que qualquer dinheiro. Isso que faz uma nação!”

(Trecho de uma aula de vida, que veio do fundo das emoções de uma lutadora pela paz.)

domingo, 23 de setembro de 2012

Relatos timorenses III


“... nós não queremos a ONU em nosso país porque na verdade eles nada fazem ou podem fazer por nós. No momento da Independência havia uma necessidade internacional para a ONU estar aqui. Quando mais sofríamos, tendo muitos timorenses morrido, o que tivemos foi o seguinte: Portugal nos abandonou para tratar de seus problemas pátrios, a Indonésia nos invadiu de forma dramática com armas compradas dos Estados Unidos... a Austrália não achava interessante um país com ideias socialistas, ninguém nos quis defender, nem o Brasil. A ONU existiu para melhorar a consciência mundial e porque Timor-Leste tem petróleo e outras riquezas.
Hoje não precisamos mais da ONU. Ela não resolve nada aqui em nosso país. Precisamos de cooperação tecnológica e de muito respeito das nações para conseguirmos crescer da nossa forma. Com os nossos interesses e a nossa cultura. Não precisamos de nações nos explorando mais. Nossa riqueza maior é o nosso povo e para eles é Timor-Leste. Eu seria muito infeliz, professor, se visse meu país nas mãos de outra nação novamente.”

(Assim se manifestou o senhor que cuida do jardim da Faculdade onde trabalho, em bom português e alto grau de emoção)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Relatos timorenses II


“- Professor, Timor-Leste vive hoje como um jovem. O que querem os jovens? Aproveitar sua liberdade. Mas isso sempre é perigoso, não é professor? Eu sou mãe de dois rapazes e vivo dizendo a eles que estudem, que consigam trabalhar e que formem uma família respeitosa. Porque o pai deles, seus tios e muitos amigos nossos tiveram que passar pela dificuldade dos massacres de Timor. Meu marido morreu no massacre de Santa-Cruz. E não puderam ver o país livre da Indonésia. Mas meus filhos podem e vão criar os seus filhos com liberdade. Professor, Timor-Leste não precisa ser rico com o dinheiro, precisa ser rico com o respeito aos direitos humanos. Eu vi meu pai ser torturado e morto. Eu e meus irmãos. Foi Deus, nosso senhor, que não permitiu que eu fosse morta. Passei muita fome no campo de prisioneiros. Algumas amigas minhas foram abusadas pelos soldados indonésios. Eu sempre fui feia e isso me salvou. Os timorenses que tinham dinheiro naquela altura já haviam saído de Timor-Leste. Então, professor, não é a riqueza que nos salva, não é a beleza, é a dignidade.
- Mas a senhora disse que seu pai foi morto, seus irmãos, amigos, até seu marido. Por que eles não foram salvos?
- Professor, a dignidade é uma arma muito forte que assusta as pessoas. Os soldados indonésios tinham medo da dignidade timorense. De sua crença religiosa, de sua vontade política. Toda a gente queria Timor-Leste um país com igualdade para todos. Isso assusta. E os soldados tinham as pistolas e outras armas na mão. Para se defenderem da dignidade, matavam as pessoas. Muitas pessoas morreram defendendo a dignidade das pessoas que ficaram vivas.
- E hoje? A senhora acredita que foi válido todo esse sacrifício?
- Não precisava ser assim, professor. Mas a vontade do dinheiro faz as pessoas ficarem malucas e matarem até mesmo as pessoas para terem mais dinheiro. Então, por isso mesmo, é importante que as pessoas lutem por suas vidas, pela vida de suas famílias e amigos. Ou então vamos ser escravos dos mais fortes, não é mesmo, professor?”
(Conversa com uma aluna de 36 anos com aparência de 50 e que hoje trabalha no ministério da Educação em Timor-Leste)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Relatos timorenses I


Eu era informante das Falintil. Vinha para Díli clandestinamente buscar documentos e informações para as tropas que estavam escondidas nas montanhas. Buscava com os padres, com os estrangeiros e com pessoas que nos ajudavam, alimentos, jornais, armamentos, cartas, tudo o que fosse preciso. Numa dessas minhas vindas, eu fui preso. Eu, minha esposa e nossas duas filhas. Fomos conduzidos a um campo de prisioneiros. Não sabiam que eu era informante das Falintil, por isso nada de pior me aconteceu. Nós tínhamos muito pouco alimento e água. Tudo da pior qualidade. Muitos prisioneiros adoeciam e morriam por causa disto. Foi o que aconteceu com minha esposa. Ela foi ficando cada vez mais magra e fraca até que um dia não resistiu e morreu. Três semanas depois, minha filha mais velha também não resistiu à fraqueza, à tuberculose e a falta de alimentos e medicamentos, e morreu. Eu, apesar de doente e fraco, consegui resistir, talvez porque havia minha filhinha de apenas 2 anos e que não teria ninguém para ampará-la. Quando tudo acabou, eu e ela fomos para meu distrito, Baucau, para recomeçar nossas vidas. Não chore não, professor. Cada um de nós tem que ser feliz com a história que tem para contar. Pergunte ao General Suharto e aos soldados indonésios as suas histórias. Essas sim são tristes, coitados!

 Deus permitiu que sobrevivêssemos a tudo aquilo, então devemos ter gratidão por esse presente: a vida. E veja bem, professor, como a vida e Deus são infinitamente sábios e bons, uma das filhas se foi para cuidar da mãe e a outra ficou comigo para me amparar na velhice. A guerra, professor, é triste, mas por causa da maldade humana ela é necessária para lutarmos por nossa dignidade. A vida sempre nos recompensa de alguma forma. Eu aqui vou trabalhando por um Timor-Leste de bandeira vermelha de sangue, mas livre. Minha esposa está no céu ajudando a proteger nossa família e nossa nação. Temos um exército de guerreiros aqui na Terra e um exército de anjos no céu. Não é lindo isso, professor!

(Relato de um professor timorense, ao voltarmos do campus distante da Universidade, em meio ao seu sorriso de felicidade e ao rio de lágrimas que me corriam a cada som pronunciado)