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domingo, 23 de setembro de 2012

Relatos timorenses III


“... nós não queremos a ONU em nosso país porque na verdade eles nada fazem ou podem fazer por nós. No momento da Independência havia uma necessidade internacional para a ONU estar aqui. Quando mais sofríamos, tendo muitos timorenses morrido, o que tivemos foi o seguinte: Portugal nos abandonou para tratar de seus problemas pátrios, a Indonésia nos invadiu de forma dramática com armas compradas dos Estados Unidos... a Austrália não achava interessante um país com ideias socialistas, ninguém nos quis defender, nem o Brasil. A ONU existiu para melhorar a consciência mundial e porque Timor-Leste tem petróleo e outras riquezas.
Hoje não precisamos mais da ONU. Ela não resolve nada aqui em nosso país. Precisamos de cooperação tecnológica e de muito respeito das nações para conseguirmos crescer da nossa forma. Com os nossos interesses e a nossa cultura. Não precisamos de nações nos explorando mais. Nossa riqueza maior é o nosso povo e para eles é Timor-Leste. Eu seria muito infeliz, professor, se visse meu país nas mãos de outra nação novamente.”

(Assim se manifestou o senhor que cuida do jardim da Faculdade onde trabalho, em bom português e alto grau de emoção)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Relatos timorenses II


“- Professor, Timor-Leste vive hoje como um jovem. O que querem os jovens? Aproveitar sua liberdade. Mas isso sempre é perigoso, não é professor? Eu sou mãe de dois rapazes e vivo dizendo a eles que estudem, que consigam trabalhar e que formem uma família respeitosa. Porque o pai deles, seus tios e muitos amigos nossos tiveram que passar pela dificuldade dos massacres de Timor. Meu marido morreu no massacre de Santa-Cruz. E não puderam ver o país livre da Indonésia. Mas meus filhos podem e vão criar os seus filhos com liberdade. Professor, Timor-Leste não precisa ser rico com o dinheiro, precisa ser rico com o respeito aos direitos humanos. Eu vi meu pai ser torturado e morto. Eu e meus irmãos. Foi Deus, nosso senhor, que não permitiu que eu fosse morta. Passei muita fome no campo de prisioneiros. Algumas amigas minhas foram abusadas pelos soldados indonésios. Eu sempre fui feia e isso me salvou. Os timorenses que tinham dinheiro naquela altura já haviam saído de Timor-Leste. Então, professor, não é a riqueza que nos salva, não é a beleza, é a dignidade.
- Mas a senhora disse que seu pai foi morto, seus irmãos, amigos, até seu marido. Por que eles não foram salvos?
- Professor, a dignidade é uma arma muito forte que assusta as pessoas. Os soldados indonésios tinham medo da dignidade timorense. De sua crença religiosa, de sua vontade política. Toda a gente queria Timor-Leste um país com igualdade para todos. Isso assusta. E os soldados tinham as pistolas e outras armas na mão. Para se defenderem da dignidade, matavam as pessoas. Muitas pessoas morreram defendendo a dignidade das pessoas que ficaram vivas.
- E hoje? A senhora acredita que foi válido todo esse sacrifício?
- Não precisava ser assim, professor. Mas a vontade do dinheiro faz as pessoas ficarem malucas e matarem até mesmo as pessoas para terem mais dinheiro. Então, por isso mesmo, é importante que as pessoas lutem por suas vidas, pela vida de suas famílias e amigos. Ou então vamos ser escravos dos mais fortes, não é mesmo, professor?”
(Conversa com uma aluna de 36 anos com aparência de 50 e que hoje trabalha no ministério da Educação em Timor-Leste)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Relatos timorenses I


Eu era informante das Falintil. Vinha para Díli clandestinamente buscar documentos e informações para as tropas que estavam escondidas nas montanhas. Buscava com os padres, com os estrangeiros e com pessoas que nos ajudavam, alimentos, jornais, armamentos, cartas, tudo o que fosse preciso. Numa dessas minhas vindas, eu fui preso. Eu, minha esposa e nossas duas filhas. Fomos conduzidos a um campo de prisioneiros. Não sabiam que eu era informante das Falintil, por isso nada de pior me aconteceu. Nós tínhamos muito pouco alimento e água. Tudo da pior qualidade. Muitos prisioneiros adoeciam e morriam por causa disto. Foi o que aconteceu com minha esposa. Ela foi ficando cada vez mais magra e fraca até que um dia não resistiu e morreu. Três semanas depois, minha filha mais velha também não resistiu à fraqueza, à tuberculose e a falta de alimentos e medicamentos, e morreu. Eu, apesar de doente e fraco, consegui resistir, talvez porque havia minha filhinha de apenas 2 anos e que não teria ninguém para ampará-la. Quando tudo acabou, eu e ela fomos para meu distrito, Baucau, para recomeçar nossas vidas. Não chore não, professor. Cada um de nós tem que ser feliz com a história que tem para contar. Pergunte ao General Suharto e aos soldados indonésios as suas histórias. Essas sim são tristes, coitados!

 Deus permitiu que sobrevivêssemos a tudo aquilo, então devemos ter gratidão por esse presente: a vida. E veja bem, professor, como a vida e Deus são infinitamente sábios e bons, uma das filhas se foi para cuidar da mãe e a outra ficou comigo para me amparar na velhice. A guerra, professor, é triste, mas por causa da maldade humana ela é necessária para lutarmos por nossa dignidade. A vida sempre nos recompensa de alguma forma. Eu aqui vou trabalhando por um Timor-Leste de bandeira vermelha de sangue, mas livre. Minha esposa está no céu ajudando a proteger nossa família e nossa nação. Temos um exército de guerreiros aqui na Terra e um exército de anjos no céu. Não é lindo isso, professor!

(Relato de um professor timorense, ao voltarmos do campus distante da Universidade, em meio ao seu sorriso de felicidade e ao rio de lágrimas que me corriam a cada som pronunciado)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Enquanto isso, na sala de aula...


Ouço sempre colegas de profissão reclamarem de seus grupos de alunos, ou porque são numerosos, ou porque o grupo é muito heterogêneo com vários níveis de conhecimento, ou porque são indisciplinados... enfim, as queixas são muitas e longe de mim dizer que são sem fundamento. Muito pelo contrário, fico muito indignado com o fato de o educador ter que se desdobrar em diversos profissionais – psicólogo, antropólogo, acrobata e até sacerdote – para poder conduzir um trabalho satisfatório com seu grupo de estudantes.
No entanto, pratico em minhas meditações pedagógicas a reflexão desta diversidade e algumas ideias vão se assomando aos conhecimentos que construo em meu cotidiano profissional e que quero, aqui, compartilhar com vocês.
Primeiramente, uma sala de aula numerosa é um grande polo de seres humanos – pensantes e sentintes, como sabiamente diz Drummond – e que, se bem organizados e com boa orientação, podem vir a se tornar um grupo forte, participativo, crítico e, portanto, algo que não se quer no cenário social. Sendo assim, os governos entulham as salas de aula com mais seres humanos, pagam mal aos professores e auxiliam nossa classe a perpetuar a ideia de que é impossível fazer um trabalho satisfatório nessas condições. Resultado: o caos e o despropósito que está a Educação!
Por outro lado, a heterogeneidade que permeia as salas de aula, a disparidade de conhecimentos e a falta de informações claras por parte de uma grande maioria consistem em um campo fértil para a promoção de grandes discussões dada a multidiversidade de pensares, o multiculturalismo e as possibilidades de se questionar verdades, ciências e dogmas tão apregoados nos currículos escolares, mas nem sempre claros – para alunos e professores – de suas reais necessidades e eficácia. Isto tudo, associada ao despreparo e a desmotivação dos profissionais da educação que, diga-se de passagem, é estratégia política de manipulação de massa, perpetua a falácia da impossibilidade de um trabalho satisfatório. Resultado: o caos e a insanidade praticados na Educação em seus mais variados níveis!
Por último, mas não menos importante (chavões são feios, portanto cabem no teor deste texto), com relação à disciplina nas salas de aula, eu só questiono quanto ao que se entende por disciplina. E ainda, como podemos cobrar disciplina dos alunos se o próprio sistema é indisciplinado?
Explico-me. Disciplina, de acordo com o dicionário Houaiss, é o controle comportamental de um grupo social regido por determinadas regras, cujas infrações estão sujeitas a penalidades igualmente reguladas por normas e leis comuns ao grupo social. Eu poderia começar uma sonora gargalhada, bem ao estilo da Mafalda, de Quino, mas prefiro comentar alguns aspectos que aqui percebo. É regra (lei) que todos têm direito à educação pública e gratuita! Todos os governos possuem um percentual orçamentário para o que diz respeito à Educação! Dinheiro público, advindo do pagamento de impostos e fontes de arrecadação “lícitas” devem ser destinados ao bem estar do povo! A escravidão é crime – já resolveram dividir por dia o que ganha um professor da rede pública e descontar despesas básicas como moradia, transporte, alimentação entre outras? Devemos ensinar conteúdos significativos e contextualizados de acordo com o entorno social do aluno! A sala de aula é um espaço democrático! A escola deve formar cidadãos críticos, questionadores da sociedade em que vivem! A escola tecnicista que formava mão-de-obra para enriquecer os bolsos empresariais foi considerada pelos sábios da educação como insatisfatória quando se quer formar cidadãos críticos! O ambiente despreparado das instituições de ensino, a falta de alimentos para a população de baixa renda, a falta de recursos higiênicos constituem desrespeito à condição humana! Impor saberes previamente selecionados de forma duvidosa não é exatamente educação democrática!
Com base nessas afirmações e em muitas outras que poderiam ser aqui colocadas, podemos agora começar a discutir onde começa a indisciplina na sala de aula?
Achar culpados é tão religioso quanto inútil para resolver problemas. Assumir responsabilidades parece-me algo mais sensato! Resta saber se quem se digna a assumir governos, educação e sala de aula estão dispostos a encarar o que juraram diante de testemunhas um dia!
Aqui em Timor, meus amigos, não é diferente. A minha luta pelo respeito à Educação, com a convicção de que é através dela que podemos transformar caos em dignidade, continua também por cá. E cada vez que me deparo com os despropósitos políticos, com a corrupção descarada e com a falta de respeito à educação e aos educadores e alunos, mas me torno convicto de que este é o caminho e por isso os governantes fecham os olhos... Na realidade eles têm medo do que pode ser feito deles quando o povo “acordar”!
Timor tem diversidade em suas salas de aula, muito mais e mais acentuada do que tinha em minhas salas brasileiras. Timor tem turmas numerosas, em condições rudimentares de ensino, alunos desnutridos e com dificuldades de transporte e moradia. Timor tem corrupção, despreparo administrativo – governamental e institucional – tem descaso com a educação e com os educandos e educadores. Timor não tem indisciplina em sala de aula, porque os alunos são coagidos a respeitarem regras e pessoas, quer por “argumentos” religiosos, quer por “argumentos” sociais. No entanto aqui se vê o brilho nos olhos daqueles que querem sim ter o direito de aprender, que acreditam poder ajudar o seu país a ser um local próspero, de paz e com justiça social...
Sabe essas utopias que eu e os educadores acreditam? Pois então... bem essas... que passam longe dos relacionamentos de fachada... longe dos contratos superfaturados... longe dos interesses daqueles que fazem da política profissão e de suas canetas uma arma contra o pensar, o sentir e o fazer democrático!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Seis meses...


Seis meses em Timor... já é uma pequena caminhada! Embora pouco possa ser feito em apenas seis meses, sinto-me muito diferente daquele que aqui chegou em fevereiro. Claro que na essência sou eu mesmo, que minha teimosia taurina permanece e que os ranços mais densos da minha personalidade foram raspados, como assim tenho feito a cada dia de vida. Mas com certeza posso perceber alterações significativas tanto no Alexandre, aglutinando o ser humano e o profissional, quanto em minha visão a respeito deste país que, conforme já disse aqui inúmeras vezes, surpreende pelos paradoxos.

O Alexandre renovou-se bastante. Minha visão do papel do trabalho na vida é bem diferente daquela que tinha há um ano, por exemplo. O ritmo alucinado e quase escravocrata que nos impõem no Brasil capitalista e consumista de hoje nos afasta das pessoas, do lazer, da cultura, do descanso, nos adoece física e psicologicamente e nos atira num turbilhão de incoerências chamado sociedade. Paralelo a isto, a máfia em que se tornou a academia brasileira, as competições dentro da carreira e o academicismo medíocre fazem com que a Universidade, idealizada como fórum de discussões e busca por soluções para os problemas sociais, seja hoje um grande circo dos horrores, no qual poucos “carregam pianos” pesados e se preocupam realmente com os princípios universitários, e muitos, infelizmente, motivados por suas vaidades e sede pelo consumo, escalam-se uns aos outros, segregam, marginalizam e direcionam holofotes aos seu próprio ego, brincando de deuses de uma das maiores responsabilidades sociais: a Educação!
Aqui, longe dos apelos consumistas mais fortes, longe da lógica ocidental atordoada e infeliz e, principalmente, longe da disputa do Olimpo Universitário, sinto-me útil, cumprindo meu papel, contribuindo e realmente sentindo as diferenças que tenho feito na vida de pessoas e instituições. Sinto-me profissional e não escravo do meu trabalho. Sinto-me ser humano e não uma peça de jogo nas mãos de déspotas irresponsáveis!

Por sua vez, Timor-Leste tem hoje novas cores para mim. Está longe de ser o meu lar pois minhas raízes brasileiras são muito fortes. Mas entendo bem mais o Timor e, portanto, percebo nuances diversas daquelas iniciais. Os timorenses não são apenas um povo que sofreu com guerras, um povo primitivo ou atrasado... os timorenses são pessoas forçadas por inúmeros interesses a abandonarem a sua cultura e assumirem um ritmo, um padrão e valores diferentes dos seus próprios. Eles não passam fome, se alimentam como acham que deve ser e que o mundo capitalista chama de sub-alimentação. São desnutridos para os nossos padrões, mas vivem bem apesar disso e se não vivem melhor é porque culturas estrangeiras contribuíram pouco para seus hábitos alimentares. Moram com simplicidade, pois simples é a vida que querem pra si, mas estão se vendo forçados a, pouco a pouco, entrarem no ritmo capitalista de consumo de conhecimento, competição no mercado de trabalho e consumo de bens que antes ignoravam a existência. Assumiram religião, língua e costumes que não são os seus, porque os ensinaram que são importantes, fundamentais, melhores ou coisa do gênero.

Timor-Leste é hoje, para mim, um motivo de constante reflexão, um poema inacabado e um campo de muito trabalho, muito mais para mim do que para o país em si. Não é meu lar, como disse antes, aqui sou estrangeiro e penso que é bom me sentir assim... mas é um lugar pronto para o respeito daqueles que o compreendem e, se possível, para alguma colaboração naquilo que os timorenses entendem que seja necessário.

Vamos ver como serão nos próximos meses...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Linhas de outrem - meus pensamentos


Hoje me chegou ao conhecimento umas linhas bem fortes que compartilho pois acho pertinente aos meus escritos daqui e ao que vivo neste país maravilhoso e turbulento que é Timor-Leste.
“Nasci, pois, com todos os atributos para ser um triste, um rústico, um insubmisso, um revoltado. E obedeci, na infância e na adolescência, a essa predestinação. A Vida é que, com as suas esporas de aço, rasgando-me as carnes, subjugando-me os ímpetos, domesticou, pouco a pouco, este poldro selvagem.” Humberto de Campos

Loron diak!

domingo, 15 de julho de 2012

Confissões de um viajante


Conhecer um pouco mais sobre o “modus vivendi” e a cultura Indonésia, após ter estudado um pouco aquele país em minhas caminhadas por lá, algumas reflexões me ocorrem, nada definitivo, mas que abrem caminhos para novos pensamentos e ideias sobre o Timor-Leste e sobre as transformações que ocorrem em minha vida neste ano de 2012.
A Indonésia se descortinou para mim de forma caótica, fantástica e revoltante. Explicarei. O fato de haver muitos habitantes por km² (mais de 230 milhões de habitantes), em suas quase 16 mil ilhas, faz com que a administração pública seja algo realmente complexo. Como se não bastasse tais números, o país apresenta o agravante religioso islâmico, hindu e budista que, por si só, são complexidades esplêndidas. Isso torna o país um tanto quanto confuso e interessante, ao mesmo tempo desesperador.
O trânsito é algo que não há palavras para descrever, apenas uma dúvida: como milhares de motocicletas transpassando filas intermináveis de carros não chocam-se umas com as outras ou ainda com os transportes informais locais, tipo, bicicletas com cadeirinhas na frente conduzindo turistas e moradores, tuk-tuks (pequenas motos com cabine para passageiros) e charretes??? Bem, é assim... tudo isso, o tempo todo, em todas as ruas a balburdiar a cidade de forma exaustiva e terrível. Se não são engarrafamentos infinitos – como em Jakarta – é um fluxo pesado e contínuo de veículos, a ponto de não se conseguir atravessar uma rua. Solução? O governo conseguiu alguns paliativos construindo passarelas de pedestres em diversos locais. Transporte público de qualidade? Pra quê? Faixas de pedestre, semáforos e leis de trânsito? Por quê?
O Brasil conseguiu uma política de formação de condutores e legislação de trânsito considerável. Mas, enquanto muitos países da Ásia têm investido pesadamente em transporte público seguro, acessível e de qualidade para diminuir o fluxo de veículos nas ruas, o Brasil nem barateia os impostos dos veículos, nem oferece o transporte público decente. E  Timor???? Bem, este herdou a confusão de trânsito que há na Indonésia e a incompetência administrativa portuguesa (que é evidente em nosso país também).
Aqui em Timor as buzinas e a displicência são os mesmos que vi nas ruas da Indonésia, onde, também, andar de táxi é uma aventura sempre radical! Isso sem contar nos motoqueiros que parecem sempre estar fugindo da morte!
Outro aspecto interessante da Indonésia é a diversidade religiosa – que não nos espanta no Brasil – mas que por aqui se concretiza pelas três facções dominantes: o islamismo, o budismo e o hinduísmo. São três grandes forças culturais mas que movimentam todo o país, quer no aspecto cultural, quer no turismo e comércio, ou mesmo na política financeira, na qual o islã surpreende pela suntuosidade de suas mesquitas e bancos! Tanta diversidade assim, com seus ritos e crenças particulares que refletidas no comportamento social do povo e nos exageros dogmáticos existentes, chamam a atenção de nós que assistimos a tudo de fora, nos fazendo ter algumas impressões interessantes.
O islamismo marca-se pesadamente pela sua arte arquitetônica e pela arte na grafia, não se permitindo expressões artísticas que reproduzam o ser humano, o que só Alah pode fazer. Preservam seus espaços religiosos, seus ritos e mostram a sobriedade e a força de sua crença na vida das pessoas, por véus e burcas e chamadas para rezas a cada hora ímpar. São fortes em sua postura e marcam seus espaços com veemência. Isso tudo contrasta com o politeísmo colorido e hospitaleiro de templos budistas e hinduístas, com o perfume dos incensos e com as vestes chamativas indianas, com o dourado de budas alegres e o colorido multiforme e psicodélico dos inúmeros deuses hindus. As flores e as frutas ofertadas no hinduísmo, o culto aos antepassados no budismo e o sorriso com que nos conduzem aos seus lugares sagrados nos deixam bastante confortáveis nesses espaços.
No Brasil eu vejo uma forte bancada evangélica conservadora e retrógada tomando conta de espaços políticos e manipulando importantes avanços sociais “em nome de Deus”, tal como o islã tem feito. Não é a preservação de uma crença religiosa, mas o controle de um comportamento social, em outras palavras, uma dominação imperialista como outra qualquer. As demais religiões não são tão representativas, umas por que não convém pois teriam que sair de sua zona de conforto, outras por que são tratadas como marginais e inferiores, como se muito pastorzinho que tem por aí também não acendesse suas velas e batesse seus tambores para alcançar “uma graça”.
Em Timor, a crença católica é rigorosa, conservadora, controladora e dominadora. Se sobrepôs às práticas religiosas tribais existentes no passado com o pretexto da difusão linguística portuguesa e do refrigério espiritual frente a tantas guerras existentes. Está tão presente na política do país, como o islamismo nos países muçulmanos e os evangélicos no Brasil. Inclusive praticando as mesmas incoerências e desmandos, impondo seus dogmas tal e qual, pois é controlando e disciplinando que se formam os exércitos de formiguinhas a levar comida para a formiga-rainha. Mas não podemos esquecer que religião é um fator cultural e, portanto, deve ser respeitado!
Mas a Indonésia fascina. O caos é um alerta e um convite à reflexão. A diversidade religiosa é um toque de arte, de cor, de perfume, de música, de movimento e de amor que, em sua filosofia nos deixa encantados, e em sua prática humana mundana, revoltados. Tudo isso num contexto de sabores picantes e exóticos, adornados por paraísos naturais diverso que vão desde os inúmeros vulcões ao paraíso cristalino de mares, praias e verdes recantos. Um país cujo povo sustenta a bandeira da Independência dos holandeses conquistada à força, um país que sofreu a invasão japonesa durante a segunda guerra e que, apesar de ter sofrido toda essa opressão, diz ter sido “forçada a anexar o território de Timor-Leste, dadas as condições instáveis daquele país e atendendo a pedidos de lideranças políticas timorenses.” – Palavras lidas no Museu Nacional da Indonésia, em Jakarta, no Monumento à Independência, Merdeka Square.
Parece irônico, mas é apenas humano e bem corriqueiro... se fizeram comigo, posso fazer com os outros!
Viajar amplia os horizontes!

Loron diak hotu-hotu!