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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Língua Portuguesa em Timor-Leste: Paradoxo Brasil e Portugal!

“Revolta, raiva ou similar” seriam os melhores termos para expressar um sentimento que tenho, mas talvez isso anularia o que venho desenvolvendo dentro de mim ao longo de anos no que diz respeito à espiritualidade. Uso portanto “indignação”, que é politicamente correto, satisfaz os meus desgostos e contribui para a possibilidade de alguma mudança.
Os nossos colonizadores portugueses, sua postura dominadora exploratória, seus interesses desumanos e sua incompetência administrativa têm sido evidentes na história de muitas vidas e países ontem, hoje e sei lá eu por quanto tempo.
No Brasil, exploraram e mataram centenas de nativos indígenas sob o argumento exploratório desrespeitoso. Fundaram vilas e cidades colocando cidadãos de índole duvidosa para “administrá-las” de forma a atender o enriquecimento da coroa. Como não sabiam - e nem queriam saber – desenvolver trabalho braçal pesado, cruelmente escravizaram cidadãos africanos, impondo-lhes língua, cultura e credo, da forma mais animal e aterrorizante possível,  que nem Hitler teve competência carnívora para apagar. Forjaram uma independência, pois não conseguiam mais “dar conta” de um país grande e diverso como o nosso, venderam-no para a Inglaterra e deixaram em nossas terras um legado de problemas, injustiças sociais, crueldades e baixarias que amargamos até hoje.
Em Timor-Leste não foi diferente. Mesmo estando neste território desde 1560, pouco fizeram para, de alguma forma, contribuir para os nativos timorenses, se é que era necessária alguma contribuição, visto que, dentro de sua lógica de vida e necessidades, vivem muito bem, apesar de nós “malaes”. Enfim, aqui a Igreja Católica também foi usada para - e fez uso da - oportunidade colonialista. Usando as preces em língua portuguesa, auxiliaram a disseminação do idioma e ampliaram seus domínios religiosos. Enquanto a política cruel feria, explorava e matava, a “bondade” cristã acalmava corações e almas em língua portuguesa, idioma europeu mais evoluído e de prestígio. Após pequenas e desimportantes ações educacionais, somente no século XX, depois da década de 60, há um empenho maior do governo português – leia-se ditadura Salazar – em fundar escolas, trazer missionários e, claro, soldados, que contribuíram para o uso do português por cá. Conseguiram até a proeza de elevar a taxa de alfabetização – em língua portuguesa, é claro! – de 24%, em 1971, para 77%, em 1974. Quando resolveram sair do país, deixarem este ao léu, frágil e sem maiores estruturas governamentais, o que favoreceu o domínio devastador da Indonésia, em 1975, que, entre outras insanidades, proibiu o uso do português em território nacional, mas isso merece outros textos de comentários meus. Detalhe: descobriram petróleo por aqui neste meio tempo!
Hoje o que vemos é um cenário que só não é caótico porque a lógica aqui é bem outra da nossa ocidental, e eu sou uma pessoa otimista. Os portugueses ainda se acham no direito de se indignar com a dificuldade de aprendizado de língua portuguesa dos alunos timorenses. Bem, juntem o que escrevi anteriormente com a situação política-econômica em que Portugal se encontra e podemos compreender bem a situação. E que se abra aqui um parênteses com a fala do primeiro-ministro atual de Portugal dizendo que o desemprego em terras lusitanas poderia ser uma oportunidade para os cidadãos portugueses e que estes deveriam imigrar e procurar outros campos de trabalho (!!!). Bem, isto é fato! Se Portugal estivesse muito favorável, não haveria por cá tantos portugueses.
Os brasileiros, por sua vez, ainda que com boa-vontade, nem sempre se ajustam a essa realidade difícil, quer por desconhecimento, quer por intolerância, quer por falta de vontade. Os estímulos sociais em Timor para o uso do idioma ainda são tímidos perto do que deveria ser, no entanto as prioridades governamentais são outras e com isso concordo plenamente.
Já o governo brasileiro não me parece muito interessado em atuar por aqui visto que os interesses do Brasil hoje são outros, parece-me que de colônia explorada o Brasil quer assumir um papel de Imperialista no contexto internacional, ainda que a política interna, ao meu ver, seja uma das melhores que já tivemos, estando longe, é claro, de ser o que realmente precisamos.
E eu, ironicamente, estou aqu,i em Timor-Leste, na pretensão de contribuir de alguma forma para o ensino de Língua Portuguesa em nível universitário. Meus amigos, esse é o meu pretexto, porque o meu papel de educador transcende esses pormenores. Mas meu caráter crítico analista a todo dia me traz à mente a seguinte questão: “Qual a real importância da Língua Portuguesa em Timor-Leste?” Trabalho pensando nisto, ouvindo meus alunos, conversando com as pessoas, dando-me de corpo e alma a elas, tendo as energias sorvidas por um povo que ainda dorme sob os pesadelos de uma guerra que não foi esquecida e, diga-se de passagem, não se quer esquecer, pois as atrocidades cometidas ainda não foram totalmente investigadas e seus responsáveis chamados a responder por elas.
Uma coisa eu lhes digo, não defendo jamais a ideia de culpa, mas sim de responsabilidade. Somos responsáveis pelo que fazemos e deixamos de fazer – o que é uma forma de fazer – e devemos sempre ser lembrados por isso. O esquecimento não traz aprendizado, assim como a verdade nos mostra os caminhos que melhor nos auxiliaram.
Portugal e Brasil, cada um em sua particularidade, não assumiram suas responsabilidades e nem encontraram verdades que possam estar consonantes com as verdades timorenses e isso me faz questionar sempre o que aqueles países fazem por aqui, quais as suas reais contribuições para este povo, sob a perspectiva deste povo e não sob suas visões egoísticas. Teria respostas, mas guardo-as para mim, são minhas verdades, cada um tem a sua!

domingo, 13 de maio de 2012

Lição de patriotismo

Uma outra questão importante a ser discutida com base nas experiências que estou tendo por cá diz respeito ao sentimento patriota e nacionalista do povo timorense. Diferentemente de nós, brasileiros, esse povo construiu a duras penas a sua pátria. E entendam, não estou eu aqui a dizer que nós não suamos a camisa em nosso dia a dia pelo amor ao nosso país (alguns não têm mesmo!) O que acontece no Brasil é mais uma luta pela sobrevivência e uma gana por acúmulo de riquezas desnecessárias.
O que vejo aqui é algo bem diferente! Lutaram por tornarem-se independentes de Portugal – e sabemos bem do caráter exploratório desse domínio e da incompetência administrativa que os companheiros portugueses possuem (vide Macau, Goa, Angola e nós mesmos) – sofreram invasões na 2ª. Guerra Mundial servindo de ponto estratégico para ataques japoneses e, quando se descobre petróleo por cá, sofreram o massacre da ocupação indonésia comandada pelo monstruoso Suharto. Para restabelecer a Independência que já possuíam e assumirem o seu país, os timorenses pagaram com sangue e destruição, dor, lágrimas, sofrimentos sem dó... E há 10 anos começaram tudo do zero.
O hino timorense, já publicado neste blog, mostra bem essa luta... a bandeira, com um triângulo preto, que representa o obscurantismo  a ser superado, um triângulo amarelo, que representa os traços do colonialismo, marcas de um passado, e a base vermelha que toma mais da metade da bandeira, representando a luta – com muito sangue – pela liberdade do país, tendo como guia a estrela – branca – da cor da paz que eles tanto anseiam. Nos primeiros minutos do dia 20 de maio de 2002, a bandeira da ONU foi descida vagarosamente enquanto que a bandeira oficial do país foi hasteada, sob lágrimas de toda a multidão que ali se aglomerava feliz, saudosa de parentes e amigos que deram suas vidas por aquele momento.
As cicatrizes dessa guerra não sararam ainda, mas as mágoas e dores foram convertidas num sentimento que denota a ideia de que, apesar de ter sido do jeito que foi, Timor-Leste agora é dos timorenses, e com todas as dificuldades existentes, são os timorenses quem conduzirão o seu país. Aceita-se ajuda internacional, mas no leme quem capitaneia são os interesses deste povo, pois já foi duro demais deixar o país nas mãos de quem não soube o que é respeito e dignidade humana.
Com essas palavras, fica bem fácil entender porque este mês de maio é tão importante para este povo, porque enfeitam suas casas, prédios, carros, ruas, vestem camisetas com a bandeira nacional, a qual está hasteada em todos os lugares possíveis. Nem que seja de forma bem rústica e simples, a alegria deste povo em sustentar um símbolo que muito significa para o povo timorense. Uma conquista, uma dor, um orgulho... um misto de sentimentos e emoções de um povo que não canta seu hino em copa do mundo, porque não possuem time de futebol... que não faz passeata com caras pintadas, porque seus governantes, ainda que a nós não pareçam os ideias, são aclamados popularmente e apoiados por todos... um país que não proíbe seu povo de usar sua bandeira e cores nacionais como nos aconteceu no período da ditadura... um país que é pobre sim, mas que não há fome, pois o sentido de economia solidária e agricultura familiar funciona sem necessidade de reforma agrária, movimentos sem-terra, coronéis latifundiários escravocratas e desonrosos políticos e suas leis ilícitas e desumanas... É um país com poucos recursos materiais e grandes potencialidades humanas e as religiões, fortes e mais que presentes, são um refresco para a dor e um alento para a esperança, não um afronta à organização política, ou se aventurando a manipular meios de comunicação, opiniões e leis por conta de seus interesses próprios, assumindo uma nova forma de colonialismo religioso...
Meus queridos, vivendo isso tudo, não há como entender que no Brasil, o cheiro patriota que possuímos tem sido responsável por reeleger incompetentes e manter esse carnaval que aí está há anos, cuja quarta-feira de cinzas não chega nunca, pois é necessário que todos acordem cedo pra trabalhar como máquinas pois, afinal, estamos construindo o Brasil do Futuro!
Aqui no Timor, um país perdido num passado distante, sinto-me anos-luz a frente e hoje entendo o significado de patriotismo!
Loron diak hotu-hotu!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ataúro

O Mar do Timor certamente ficará para sempre em minha memória... a água mais cristalina que já vi, o azul mais belo e as fantásticas maravilhas que ali habitam são, para mim, algo fascinante e motivo de reflexão e aprendizado... para isso cá estou!
Neste final de semana fui com alguns amigos para uma ilha – Ataúro - que fica em frente de Díli, a capital do país. Parece perto, mas a viagem demora mais de 2 horas de barco. O sol estava firme e forte, como sempre, e a alegria e espírito aventureiro em alta para desbravar mais um paraíso timorense.
Lá chegando, pegamos o transporte local – tuk-tuk – uma moto que puxa um carrinho onde vão 6 pessoas sentadas. É uma aventura andar naquilo e eu adorei. O preço pra “malae”(gringos) é sempre maior do que pra timorenses... uma constante que enfrentamos por cá. Enfim, um lugar de muito verde, mar lindo, silêncio e muita paz. Nossa pousada – Manukoko – fica há uns 20 minutos do píer onde desembarcamos e é super aconchegante, dentro de sua simplicidade, da paz que a rodeia. 
A vila é algo de encantador... é como se tivesse voltado uns 50 anos no tempo, em uma cidade do interior brasileiro... a igrejinha... as casinhas com telhado de palha de coqueiros... a escolinha... plantações e animais... tudo muito simples... tudo muito calmo e belo... e crianças por todos os lados vindo brincar conosco, pedindo para sair em nossas fotos... algo de muita energia positiva!
A fábrica de bonecas de Ataúro – uma cooperativa de costureiras que faz bonecas de pano e bolsas – fica em frente de nossa pousada. Algo de inusitado pois a forma como trabalham as senhoras e a produção exposta para venda é algo de interessante... sem maiores preocupações com a estética de mostruários, as mercadorias ali estão em estantes e armários para os interessados... e algumas senhoras atendem e conversam com as pessoas... com uma alegria e um orgulho do que fazem que sempre nos faz repensar o sentido do trabalho na sociedade!
Após uma noite pra lá de agradável, iluminada por lampiões, preenchida com música de violão, um jantar gostoso e ótima companhia, o domingo amanheceu prometendo grandes aventuras. Não porque era meu aniversário, ou porque a chuva caída à noite havia refrescado o clima um pouco mais causando uma sensação térmica pra lá de agradável. Mas porque havíamos planejado um passeio de barco com direito a mergulhos nas águas de Ataúro.
Pois bem, a hora combinada chegou e lá fomos nós, quatro malaes, sem maiores preparos físicos, rumo a algo que nos parecia legal... e foi! Muito mesmo! A começar pelo meio de transporte, uma espécie de canoa esculpida em um tronco de madeira, com duas traves laterais de bambu que garantiam seu equilíbrio e um motor conduzido por um timorense – Zé – que não falava uma palavra sequer em português... apenas tétum, a língua local a qual todos nós estamos arranhando e sobrevivendo.
A cor da água é algo que merece destaque... um azul indescritível... cristalina... límpida e convidativa... temperatura amena... algo que nunca havia visto antes. Permitia que os raios do sol entrassem iluminando seus corais, refletindo suas cores e transformando tudo aquilo num cenário fenomenal.
As cores que vi, do azul Royal ao azul celeste, do roxo ao lilás, do vermelho ao rosa passando pelo dourado e os tons terrosos, as texturas aveludadas, plumadas e metálicas, ora rugosas e firmes, oras sensíveis ao balanço do mar... os peixes multicoloridos e de formatos vairados... as estrelas do mar que mais pareciam de pelúcia fina e sedosa... nadei entre cardumes muito grandes... passeei com os amigos marinhos... parecia ouvir uma sinfonia ao fundo... uma música celestial que servisse de trilha sonora para toda aquela maravilha que ali estava ao meu alcance... poderia ser uma alucinação lisérgica... poderia ser tudo imaginação de minha mente sempre alterada... mas era tudo tão real que chegava a me espantar... tal a beleza... o balé aquático executado... e o carinho amistoso com que todas aquelas criaturas me desejavam Feliz Aniversário... fazia tempo que não me sentia tão privilegiado quanto aqueles instantes que jamais sairão de minha mente e que sempre merecerão meu respeito e veneração!
Se eu já havia tido reflexões profundas sobre o mar em outros tempos idos... agora eu as reforço... Seria esse mar imenso e misterioso apenas um palco para espetáculos de tamanha grandiosidade? Nós, humanos, precisamos de aulas de humildade para entender a magnitude da natureza e nos colocarmos no devido lugar dentro dela... nem mais, nem menos!
Loron diak hotu hotu!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

LORON dIAK

Quando se pensa em Timor, uma gama de problemas vêm à mente da gente diante de um histórico de invasões e guerras aqui vividas. No entanto, quando se vive em Timor, exercemos o entendimento de algumas situações que nos fazem repensar atitudes e verdades que antes nos pareciam confortáveis.
Estava eu em uma de minhas aulas de ensino de Língua Portuguesa – o que, diga-se de passagem, é uma experiência interessantíssima por si só – quando fui interrogado por um grupo de alunos com uma apropriação de assunto que tirou-me o chão e me fez o aprendiz em lugar do instrutor.
Primeiramente o aluno me pergunta qual o motivo de aprenderem o Português. A resposta mecânica seria a justificativa por ser um dos idiomas oficiais de seu país, ou ainda por ser a língua da resistência contra a invasão Indonésia, ou mais ainda pelo resgaste das raízes culturais de seu povo... enfim, naquele momento, nenhuma dessas razões óbvias me pareciam tão justas assim, uma vez que, para a geração mais jovem – representada por 70% da população – o Português era algo distante de sua realidade social, funcionando como uma língua estrangeira. Poucos são os ambientes sociais em que o Português é usado amplamente, sendo o Tétum a língua social da Comunicação. Ficou o professor a justificar através das possibilidades comunicativas que o idioma poderia trazer a eles, bem como entenderem mais um pouco da sociedade atual timorense que foi construída com bases na cultura portuguesa, com o uso de seu idioma influenciando até mesmo a formação do Tétum.
Um outro aluno pergunta então por que o português dos brasileiros era melhor e mais fácil que o português dos portugueses. Mais uma “saia justa” que o professor-aprendiz teve que buscar recursos diplomáticos e inteligentes para tentar entender o que realmente estava acontecendo. Ora, a língua portuguesa não é nada fácil em nenhum país dado o tempo longo em que vem sendo utilizada e modificada. Portanto talvez o nosso uso brasileiro de alguma forma atrai a simpatia dos timorenses. Constatei o fato de que falamos um pouco mais devagar que os colegas portugueses e talvez isso seja um facilitador do aprendizado e compreensão. Certamente a nossa informalidade e descontração atua positivamente nesse contexto, pois temos um carisma que é de reconhecimento internacional e uma das nossas características mais fortes. No entanto, os nossos sotaques e maneiras de falar o português do Brasil parece-me um ponto gerador de problema. Mas, ainda assim, os timorenses preferem nosso português e entendem que terão o seu próprio modo de usar o idioma sem que nós possamos, ou devamos, interferir na construção.
Mas foi a terceira pergunta capciosa que mais me fez “tremer nas bases”. Além das línguas maternas que possuem – alguns timorenses falam duas ou três delas – precisam falar o Tétum para haver uma comunicação nacional. Por conta da invasão indonésia, o português foi proibido e foram obrigados a aprenderem a língua indonésia. Com a restauração da Independência do país, a língua portuguesa retoma o cenário linguístico do país, fazendo com que voltasse a ser estudada e usada oficialmente, ainda que nem tanto amplamente assim. Isso sem falar na grande presença da Língua Inglesa, dada a proximidade com a Austrália e a presença da ONU no país. Frente a esse conturbado contexto, vem a pergunta que me calou a alma: “Professor, qual outra nação vai nos invadir e forçar-nos a aprender seu idioma?”
Consegui dizer-lhes em tom sério: “Espero que nós não deixemos que outras invasões aconteçam por aqui, e que a língua portuguesa sirva de instrumento de defesa também!”
Até quando teremos uma nação se sobrepondo às demais? Por que o caráter invasivo e dominador de alguns? Porque tudo converge para o interesse material em detrimento do humano? Quando as pessoas conseguirão entenderem-se como irmãs e companheiras e não como adversárias em plena competição? Essas e outras questões conflituosas me permeiam o pensamento a cada situação-problema que vivo por aqui. A pergunta preocupada do aluno perturbou os sentimentos do professor, mas na verdade foi uma voz ainda ferida de uma nação que, por ser pequena e com outras prioridades que não a guerra e a exploração econômica foi sempre vítima de outras que pretendem ser bem mais do que realmente são. De que lado está o Brasil?

sábado, 14 de abril de 2012

Pensando a educação em Timor

Educar não é tarefa fácil. Muito menos educar em um país com uma cultura diferente da sua. E eu aqui em Timor-Leste tenho essa tarefa a qual, ingenuamente, comecei de trás pra frente. Preparei material que julgava importante e interessante, selecionei textos e estratégias metodológicas, estudei e reli Paulo Freire, e esqueci da lição mais elementar deste processo: educar a mim mesmo.
Eu, professor bem nutrido, vindo de um país que se julga desenvolvido mas que mal deu os primeiros passos para isto, repleto de esteriótipos educacionais – alguns, confesso, preconceituosos – com diplomas e leituras que, no meu parco entendimento, me fariam preparado para qualquer desafio na Educação, vim para este país com a função de colaborar com o ensino de Língua Portuguesa, um dos idiomas oficiais, porém com recente “empenho” da nação em seu estudo sistematizado.
Olha... talvez seja esse o fascínio de um educador: descobrir-se despreparado a cada novo desafio, perceber suas incompetências e... agir! Porque há duas possibilidades aqui: desespero ou busca por algum caminho mais interessante. Conforme o poeta norte-americano Robert Frost, que, em “The Road not taken – o caminho não percorrido”, mostra-nos bifurcações da vida que nos exigem decisão e coragem, escolhi a segunda alternativa que possuía, a qual, à forma do poema citado, “fez toda a diferença”.
Comecei por um trabalho interno muito grande, que demandou muita reflexão e precisei me despir das couraças que o sistema acadêmico brasileiro nos impinge, dos orgulhos inúteis fiz humilde aprendizado; das teorias insólitas, observação da realidade existente; dos discursos prontos, novas escrituras e atitudes; e, com uma boa dose de coragem e boa vontade, iniciei efetivamente meu trabalho.
Hoje, a cada cabeçada que dou no cotidiano de minha atuação profissional, a cada sucesso ou fracasso aparentes, revendo todo o processo organizado, percebo que nasce em mim um novo educador. Não aquele formado e diplomado. Mas aquele que está se construindo a partir de confrontos e paradoxos. Aquele que vem surgindo de um terreno aparentemente despreparado, mas que demonstra um vigor indiferente às suas condições de existência. Um educador que está engatinhando na tarefa do ensinar, apesar da bagagem de experiência adquirida ao longo de alguns anos, e que entendeu que a maior lição a ser aprendida já nos foi dada há tempos: “só sei que nada sei!”
Assim, nessa terra cujo povo já foi maltratado por invasores imperialistas cruéis portugueses, japoneses e indonésios, que impuseram seu poderio, cultura e idioma desrespeitando sua existência cultural e social... nessa terra cujos habitantes comunicam-se através de, pelo menos, 4 idiomas diferentes e não raras vezes 6 e até 8 línguas distintas, várias das quais impostas pelos históricos de dominação que possuem... nessa terra de gente pobre, mas feliz dentro das condições que possuem... de gente desconfiada, mas com um carinho superprotetor... nessa terra onde os paradoxos são imensos mas a vontade de existir dignamente se sobrepõe a tudo... foi bem aqui que eu, educador em formação, percebi que para ensinar é preciso estar disposto a aprender, sem condições ou pré-requisitos... é preciso estar nos problemas alheios e não apenas reconhecê-los como uma responsabilidade não sua... é preciso despir-se de conceitos aos quais nos apegamos por uma insanidade mascarada de qualquer coisa e perceber que educar vem de dentro, do olho no olho sincero, da real vontade de construir algo que faça bem a todos os envolvidos e que eu não sou ninguém pra determinar o que deve ou não deve ser aprendido, mas que o aprendizado real só é significativo quando as partes envolvidas descobrem-se cúmplices no processo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Refletindo

Nos contos e causos que por cá escuto, atento-me aos que me acordam o sentimento, e aos que me provocam o pensar... e penso! Penso tanto que cansa-me o espírito de pensar, mas não desisto da tarefa pois, assim, aprendo, e muito!
Essa gente de vida mais que simples, de sorriso mais que mistério, de fala mais que alta e de desconfiança mais que evidente estão sabedorias das que brilham como ouro e prata, justamente um tesouro não valioso no mundo moderno do metal que compra vidas, sorrisos, mistérios e as falas.
Nem a vida, nem os sorrisos, muito menos o mistério dessa gente esconde as cicatrizes ainda bem abertas de uma história que insistem em nos contar, o que, no meu parco entendimento não é nada senão um apelo, uma súplica por defesa e proteção, ainda que a confiança em nós depositada seja evidentemente desconfiada. Uma desconfiança que reside na história de muitos “malaes” que por cá viveram e vivem, e se aproveitam das moças e moços dessa gente, que insistem em impor uma superioridade sem sentido, que sujam suas ruas e praias, que desvalorizam sua cultura e envergonham suas nações por eles aqui representadas e que nada enxergam a não ser os interesses próprios, de suas organizações e instituições.
Interessante como o mal institucionado tem uma força desumana e irresponsável. É capaz de dizimar um povo, de destruir as relações entre as pessoas e massacrar toda uma cultura em favor de intenções duvidosas e arbitrárias, desnutridas de nobreza e humanismo. Em contrapartida, o bem, que já é escasso individualmente, quando institucionado encontra todo o tipo de resistência para existir, dos entraves burocráticos aos impedimentos da preguiça, do orgulho e do egoísmo humanos.
Há que se encontrar um ponto de equilíbrio entre as duas forças energéticas que movem as intenções do homem. Que o mal exista na medida certa para nos fazer acreditar que exista algo bem melhor, e, assim criemos recursos tais de superação de intempéries e contrariedades. Que o bem tenha a força tal para não sucumbir às dificuldades necessárias para sua condução. Que o ser humano seja assim realmente, sinta sem restrições, emocione-se sem permissões, ame sem condições e, por ser humano, tenha a sabedoria de lidar com o bem e o mal sem moderações, com convicções e, acima de tudo, com determinações!!!

terça-feira, 20 de março de 2012

Cantando o Timor

Estar no Timor, é cantar... e, conforme o poeta, “quando o canto é reza, todo toque é santo!”

Escuto por aqui histórias de arrepiar os cabelos! Relatos da guerra, a “caçada” aos timorenses, a morte de parentes e amigos, a fuga e o esconderijo na floresta, nas montanhas, as torturas e massacres... e isso, dito por bocas que ainda não calaram a dor em si, mas não a transformam em motivo de depressão ou para despertar a piedade alheia, mas na intenção única de alertar a todos para que nada disso volte a acontecer... Nessas horas eu canto!

Leio textos de meus alunos falando das dificuldades por eles vencidas para estarem em um banco universitário. O orgulho que possuem por terem alcançado esse estágio e a vontade de ajudarem o seu país, ainda que não saibam como, mas, na visão deles, a universidade dará esse rumo!!! Contam-me da pobreza em que vivem seus familiares, da escassez na infância e da dificuldade em se manterem na capital do país, longe de todos e sem recursos que permitam que se alimentem adequadamente... Nessas horas eu canto!

Converso com professores que realizam trabalhos miraculosos com turmas de 100, 120 alunos e conseguem que estes construam conhecimentos e que consigam fazer reflexões valiosas a respeito das condições de seu país e de seu povo. A respeito do que aconteceu-lhes historicamente e do que há ao redor ainda hoje como ameaça. Da suposta ajuda das cooperações internacionais e da presença da ONU neste território. Da força da religião por aqui e da esperança que todo esse conhecimento venha trazer-lhes algum alívio nacional... nessas horas eu canto!

Comparo tudo isso que vejo por aqui com aquilo que deixei no meu país. Vejo aqui ainda a impunidade daqueles que exterminaram 200 mil pessoas timorenses impiedosamente, assim como vejo a impunidade daqueles que torturaram e mataram muitos brasileiros que queriam um país realmente livre e democrático. Vejo aqui uma elite que usufrui de riquezas e uma multidão de pessoas que se alimenta precariamente, assim como vejo os políticos brasileiros fazerem carreira político e pouco contribuírem para sanar nossas carências mais elementares. Mas vejo aqui uma unanimidade com relação à Educação e ao papel do educador que jamais, nem de longe, percebi na sociedade brasileira. Nessas horas... eu paro de cantar!!!!