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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Enquanto isso, na sala de aula...


Ouço sempre colegas de profissão reclamarem de seus grupos de alunos, ou porque são numerosos, ou porque o grupo é muito heterogêneo com vários níveis de conhecimento, ou porque são indisciplinados... enfim, as queixas são muitas e longe de mim dizer que são sem fundamento. Muito pelo contrário, fico muito indignado com o fato de o educador ter que se desdobrar em diversos profissionais – psicólogo, antropólogo, acrobata e até sacerdote – para poder conduzir um trabalho satisfatório com seu grupo de estudantes.
No entanto, pratico em minhas meditações pedagógicas a reflexão desta diversidade e algumas ideias vão se assomando aos conhecimentos que construo em meu cotidiano profissional e que quero, aqui, compartilhar com vocês.
Primeiramente, uma sala de aula numerosa é um grande polo de seres humanos – pensantes e sentintes, como sabiamente diz Drummond – e que, se bem organizados e com boa orientação, podem vir a se tornar um grupo forte, participativo, crítico e, portanto, algo que não se quer no cenário social. Sendo assim, os governos entulham as salas de aula com mais seres humanos, pagam mal aos professores e auxiliam nossa classe a perpetuar a ideia de que é impossível fazer um trabalho satisfatório nessas condições. Resultado: o caos e o despropósito que está a Educação!
Por outro lado, a heterogeneidade que permeia as salas de aula, a disparidade de conhecimentos e a falta de informações claras por parte de uma grande maioria consistem em um campo fértil para a promoção de grandes discussões dada a multidiversidade de pensares, o multiculturalismo e as possibilidades de se questionar verdades, ciências e dogmas tão apregoados nos currículos escolares, mas nem sempre claros – para alunos e professores – de suas reais necessidades e eficácia. Isto tudo, associada ao despreparo e a desmotivação dos profissionais da educação que, diga-se de passagem, é estratégia política de manipulação de massa, perpetua a falácia da impossibilidade de um trabalho satisfatório. Resultado: o caos e a insanidade praticados na Educação em seus mais variados níveis!
Por último, mas não menos importante (chavões são feios, portanto cabem no teor deste texto), com relação à disciplina nas salas de aula, eu só questiono quanto ao que se entende por disciplina. E ainda, como podemos cobrar disciplina dos alunos se o próprio sistema é indisciplinado?
Explico-me. Disciplina, de acordo com o dicionário Houaiss, é o controle comportamental de um grupo social regido por determinadas regras, cujas infrações estão sujeitas a penalidades igualmente reguladas por normas e leis comuns ao grupo social. Eu poderia começar uma sonora gargalhada, bem ao estilo da Mafalda, de Quino, mas prefiro comentar alguns aspectos que aqui percebo. É regra (lei) que todos têm direito à educação pública e gratuita! Todos os governos possuem um percentual orçamentário para o que diz respeito à Educação! Dinheiro público, advindo do pagamento de impostos e fontes de arrecadação “lícitas” devem ser destinados ao bem estar do povo! A escravidão é crime – já resolveram dividir por dia o que ganha um professor da rede pública e descontar despesas básicas como moradia, transporte, alimentação entre outras? Devemos ensinar conteúdos significativos e contextualizados de acordo com o entorno social do aluno! A sala de aula é um espaço democrático! A escola deve formar cidadãos críticos, questionadores da sociedade em que vivem! A escola tecnicista que formava mão-de-obra para enriquecer os bolsos empresariais foi considerada pelos sábios da educação como insatisfatória quando se quer formar cidadãos críticos! O ambiente despreparado das instituições de ensino, a falta de alimentos para a população de baixa renda, a falta de recursos higiênicos constituem desrespeito à condição humana! Impor saberes previamente selecionados de forma duvidosa não é exatamente educação democrática!
Com base nessas afirmações e em muitas outras que poderiam ser aqui colocadas, podemos agora começar a discutir onde começa a indisciplina na sala de aula?
Achar culpados é tão religioso quanto inútil para resolver problemas. Assumir responsabilidades parece-me algo mais sensato! Resta saber se quem se digna a assumir governos, educação e sala de aula estão dispostos a encarar o que juraram diante de testemunhas um dia!
Aqui em Timor, meus amigos, não é diferente. A minha luta pelo respeito à Educação, com a convicção de que é através dela que podemos transformar caos em dignidade, continua também por cá. E cada vez que me deparo com os despropósitos políticos, com a corrupção descarada e com a falta de respeito à educação e aos educadores e alunos, mas me torno convicto de que este é o caminho e por isso os governantes fecham os olhos... Na realidade eles têm medo do que pode ser feito deles quando o povo “acordar”!
Timor tem diversidade em suas salas de aula, muito mais e mais acentuada do que tinha em minhas salas brasileiras. Timor tem turmas numerosas, em condições rudimentares de ensino, alunos desnutridos e com dificuldades de transporte e moradia. Timor tem corrupção, despreparo administrativo – governamental e institucional – tem descaso com a educação e com os educandos e educadores. Timor não tem indisciplina em sala de aula, porque os alunos são coagidos a respeitarem regras e pessoas, quer por “argumentos” religiosos, quer por “argumentos” sociais. No entanto aqui se vê o brilho nos olhos daqueles que querem sim ter o direito de aprender, que acreditam poder ajudar o seu país a ser um local próspero, de paz e com justiça social...
Sabe essas utopias que eu e os educadores acreditam? Pois então... bem essas... que passam longe dos relacionamentos de fachada... longe dos contratos superfaturados... longe dos interesses daqueles que fazem da política profissão e de suas canetas uma arma contra o pensar, o sentir e o fazer democrático!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Seis meses...


Seis meses em Timor... já é uma pequena caminhada! Embora pouco possa ser feito em apenas seis meses, sinto-me muito diferente daquele que aqui chegou em fevereiro. Claro que na essência sou eu mesmo, que minha teimosia taurina permanece e que os ranços mais densos da minha personalidade foram raspados, como assim tenho feito a cada dia de vida. Mas com certeza posso perceber alterações significativas tanto no Alexandre, aglutinando o ser humano e o profissional, quanto em minha visão a respeito deste país que, conforme já disse aqui inúmeras vezes, surpreende pelos paradoxos.

O Alexandre renovou-se bastante. Minha visão do papel do trabalho na vida é bem diferente daquela que tinha há um ano, por exemplo. O ritmo alucinado e quase escravocrata que nos impõem no Brasil capitalista e consumista de hoje nos afasta das pessoas, do lazer, da cultura, do descanso, nos adoece física e psicologicamente e nos atira num turbilhão de incoerências chamado sociedade. Paralelo a isto, a máfia em que se tornou a academia brasileira, as competições dentro da carreira e o academicismo medíocre fazem com que a Universidade, idealizada como fórum de discussões e busca por soluções para os problemas sociais, seja hoje um grande circo dos horrores, no qual poucos “carregam pianos” pesados e se preocupam realmente com os princípios universitários, e muitos, infelizmente, motivados por suas vaidades e sede pelo consumo, escalam-se uns aos outros, segregam, marginalizam e direcionam holofotes aos seu próprio ego, brincando de deuses de uma das maiores responsabilidades sociais: a Educação!
Aqui, longe dos apelos consumistas mais fortes, longe da lógica ocidental atordoada e infeliz e, principalmente, longe da disputa do Olimpo Universitário, sinto-me útil, cumprindo meu papel, contribuindo e realmente sentindo as diferenças que tenho feito na vida de pessoas e instituições. Sinto-me profissional e não escravo do meu trabalho. Sinto-me ser humano e não uma peça de jogo nas mãos de déspotas irresponsáveis!

Por sua vez, Timor-Leste tem hoje novas cores para mim. Está longe de ser o meu lar pois minhas raízes brasileiras são muito fortes. Mas entendo bem mais o Timor e, portanto, percebo nuances diversas daquelas iniciais. Os timorenses não são apenas um povo que sofreu com guerras, um povo primitivo ou atrasado... os timorenses são pessoas forçadas por inúmeros interesses a abandonarem a sua cultura e assumirem um ritmo, um padrão e valores diferentes dos seus próprios. Eles não passam fome, se alimentam como acham que deve ser e que o mundo capitalista chama de sub-alimentação. São desnutridos para os nossos padrões, mas vivem bem apesar disso e se não vivem melhor é porque culturas estrangeiras contribuíram pouco para seus hábitos alimentares. Moram com simplicidade, pois simples é a vida que querem pra si, mas estão se vendo forçados a, pouco a pouco, entrarem no ritmo capitalista de consumo de conhecimento, competição no mercado de trabalho e consumo de bens que antes ignoravam a existência. Assumiram religião, língua e costumes que não são os seus, porque os ensinaram que são importantes, fundamentais, melhores ou coisa do gênero.

Timor-Leste é hoje, para mim, um motivo de constante reflexão, um poema inacabado e um campo de muito trabalho, muito mais para mim do que para o país em si. Não é meu lar, como disse antes, aqui sou estrangeiro e penso que é bom me sentir assim... mas é um lugar pronto para o respeito daqueles que o compreendem e, se possível, para alguma colaboração naquilo que os timorenses entendem que seja necessário.

Vamos ver como serão nos próximos meses...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Linhas de outrem - meus pensamentos


Hoje me chegou ao conhecimento umas linhas bem fortes que compartilho pois acho pertinente aos meus escritos daqui e ao que vivo neste país maravilhoso e turbulento que é Timor-Leste.
“Nasci, pois, com todos os atributos para ser um triste, um rústico, um insubmisso, um revoltado. E obedeci, na infância e na adolescência, a essa predestinação. A Vida é que, com as suas esporas de aço, rasgando-me as carnes, subjugando-me os ímpetos, domesticou, pouco a pouco, este poldro selvagem.” Humberto de Campos

Loron diak!

domingo, 15 de julho de 2012

Confissões de um viajante


Conhecer um pouco mais sobre o “modus vivendi” e a cultura Indonésia, após ter estudado um pouco aquele país em minhas caminhadas por lá, algumas reflexões me ocorrem, nada definitivo, mas que abrem caminhos para novos pensamentos e ideias sobre o Timor-Leste e sobre as transformações que ocorrem em minha vida neste ano de 2012.
A Indonésia se descortinou para mim de forma caótica, fantástica e revoltante. Explicarei. O fato de haver muitos habitantes por km² (mais de 230 milhões de habitantes), em suas quase 16 mil ilhas, faz com que a administração pública seja algo realmente complexo. Como se não bastasse tais números, o país apresenta o agravante religioso islâmico, hindu e budista que, por si só, são complexidades esplêndidas. Isso torna o país um tanto quanto confuso e interessante, ao mesmo tempo desesperador.
O trânsito é algo que não há palavras para descrever, apenas uma dúvida: como milhares de motocicletas transpassando filas intermináveis de carros não chocam-se umas com as outras ou ainda com os transportes informais locais, tipo, bicicletas com cadeirinhas na frente conduzindo turistas e moradores, tuk-tuks (pequenas motos com cabine para passageiros) e charretes??? Bem, é assim... tudo isso, o tempo todo, em todas as ruas a balburdiar a cidade de forma exaustiva e terrível. Se não são engarrafamentos infinitos – como em Jakarta – é um fluxo pesado e contínuo de veículos, a ponto de não se conseguir atravessar uma rua. Solução? O governo conseguiu alguns paliativos construindo passarelas de pedestres em diversos locais. Transporte público de qualidade? Pra quê? Faixas de pedestre, semáforos e leis de trânsito? Por quê?
O Brasil conseguiu uma política de formação de condutores e legislação de trânsito considerável. Mas, enquanto muitos países da Ásia têm investido pesadamente em transporte público seguro, acessível e de qualidade para diminuir o fluxo de veículos nas ruas, o Brasil nem barateia os impostos dos veículos, nem oferece o transporte público decente. E  Timor???? Bem, este herdou a confusão de trânsito que há na Indonésia e a incompetência administrativa portuguesa (que é evidente em nosso país também).
Aqui em Timor as buzinas e a displicência são os mesmos que vi nas ruas da Indonésia, onde, também, andar de táxi é uma aventura sempre radical! Isso sem contar nos motoqueiros que parecem sempre estar fugindo da morte!
Outro aspecto interessante da Indonésia é a diversidade religiosa – que não nos espanta no Brasil – mas que por aqui se concretiza pelas três facções dominantes: o islamismo, o budismo e o hinduísmo. São três grandes forças culturais mas que movimentam todo o país, quer no aspecto cultural, quer no turismo e comércio, ou mesmo na política financeira, na qual o islã surpreende pela suntuosidade de suas mesquitas e bancos! Tanta diversidade assim, com seus ritos e crenças particulares que refletidas no comportamento social do povo e nos exageros dogmáticos existentes, chamam a atenção de nós que assistimos a tudo de fora, nos fazendo ter algumas impressões interessantes.
O islamismo marca-se pesadamente pela sua arte arquitetônica e pela arte na grafia, não se permitindo expressões artísticas que reproduzam o ser humano, o que só Alah pode fazer. Preservam seus espaços religiosos, seus ritos e mostram a sobriedade e a força de sua crença na vida das pessoas, por véus e burcas e chamadas para rezas a cada hora ímpar. São fortes em sua postura e marcam seus espaços com veemência. Isso tudo contrasta com o politeísmo colorido e hospitaleiro de templos budistas e hinduístas, com o perfume dos incensos e com as vestes chamativas indianas, com o dourado de budas alegres e o colorido multiforme e psicodélico dos inúmeros deuses hindus. As flores e as frutas ofertadas no hinduísmo, o culto aos antepassados no budismo e o sorriso com que nos conduzem aos seus lugares sagrados nos deixam bastante confortáveis nesses espaços.
No Brasil eu vejo uma forte bancada evangélica conservadora e retrógada tomando conta de espaços políticos e manipulando importantes avanços sociais “em nome de Deus”, tal como o islã tem feito. Não é a preservação de uma crença religiosa, mas o controle de um comportamento social, em outras palavras, uma dominação imperialista como outra qualquer. As demais religiões não são tão representativas, umas por que não convém pois teriam que sair de sua zona de conforto, outras por que são tratadas como marginais e inferiores, como se muito pastorzinho que tem por aí também não acendesse suas velas e batesse seus tambores para alcançar “uma graça”.
Em Timor, a crença católica é rigorosa, conservadora, controladora e dominadora. Se sobrepôs às práticas religiosas tribais existentes no passado com o pretexto da difusão linguística portuguesa e do refrigério espiritual frente a tantas guerras existentes. Está tão presente na política do país, como o islamismo nos países muçulmanos e os evangélicos no Brasil. Inclusive praticando as mesmas incoerências e desmandos, impondo seus dogmas tal e qual, pois é controlando e disciplinando que se formam os exércitos de formiguinhas a levar comida para a formiga-rainha. Mas não podemos esquecer que religião é um fator cultural e, portanto, deve ser respeitado!
Mas a Indonésia fascina. O caos é um alerta e um convite à reflexão. A diversidade religiosa é um toque de arte, de cor, de perfume, de música, de movimento e de amor que, em sua filosofia nos deixa encantados, e em sua prática humana mundana, revoltados. Tudo isso num contexto de sabores picantes e exóticos, adornados por paraísos naturais diverso que vão desde os inúmeros vulcões ao paraíso cristalino de mares, praias e verdes recantos. Um país cujo povo sustenta a bandeira da Independência dos holandeses conquistada à força, um país que sofreu a invasão japonesa durante a segunda guerra e que, apesar de ter sofrido toda essa opressão, diz ter sido “forçada a anexar o território de Timor-Leste, dadas as condições instáveis daquele país e atendendo a pedidos de lideranças políticas timorenses.” – Palavras lidas no Museu Nacional da Indonésia, em Jakarta, no Monumento à Independência, Merdeka Square.
Parece irônico, mas é apenas humano e bem corriqueiro... se fizeram comigo, posso fazer com os outros!
Viajar amplia os horizontes!

Loron diak hotu-hotu!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Apagando o quadro...

Aqui em Timor, cada vez que eu apago o quadro, com uma flanela ou apagador precário, minha mente voa em frações de segundos. Por um lado tantos problemas sociais, tanta pobreza, tantas dificuldades. Por outro eu tentando malabarismos e acrobacias pedagógicas para fazer os alunos compreenderem e se comunicarem em língua portuguesa.
O sistema educacional aprisiona as almas em regras pré-estabelecidas por uma sociedade elitista caótica e incompetente. Mas é esse o sistema considerado o correto. Estabelece-se a hierarquia dos saberes, elenca-se as verdades científicas a serem discutidas e formata-se modelos rígidos que escravizam, catequisam e classificam melhores e piores.
Este povo, que não teve direito ao respeito e à liberdade é, agora, compelido a entrar em um sistema duvidoso para ganhar respeitabilidade enquanto Nação. Para tal, recebe a “ajuda” de profissionais estrangeiros que, ainda que alguns tenham boa-vontade, trabalham dentro dos conceitos e parâmetros quase que opostos aos presentes por cá. Impacientam-se, indignam-se e chateiam-se com as dificuldades do chamado “ritmo timorense”, lento e metódico. Mas não desapegam-se dessa total prepotência aprendida nas academias de todo o mundo, recusando, mais uma vez, o respeito tão merecido ao povo e à cultura timorenses.
Parece-me que o exercício da tolerância está longe de tornar-se entendido, quiçá de ser praticado. Parece-me ainda, que as sutilezas da educação nem sequer chegarão a ser percebidas por cá num certo espaço de tempo, visto que nem mesmo o obvio é entendido pelos profissionais da educação. Mas parece-me que tudo isto, por algum motivo e de alguma forma é extremamente necessário e relevante, e ainda fará história nesta cultura de cá, na cultura brasileira e na cultura lusófona de um modo geral.
Se assim não for, continuo apagando o quadro, para escrever novamente e de novo apagá-lo, num processo contínuo de construir novos caminhos, novas perspectivas e alcançar algum entendimento.
Educar e ensinar não são tarefas fáceis, definitivamente. Não exigem de nós estudo apenas. Mas necessitam de constante “refazer de ações refeitas”, num exercício cansativo de tolerar o que é diferente, o que provoca nosso orgulho e egoísmo e, que, na verdade, nos impede de realmente aprender e, como já dizia o mestre Paulo Freire, de repente ensinar!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Língua Portuguesa em Timor-Leste: Paradoxo Brasil e Portugal!

“Revolta, raiva ou similar” seriam os melhores termos para expressar um sentimento que tenho, mas talvez isso anularia o que venho desenvolvendo dentro de mim ao longo de anos no que diz respeito à espiritualidade. Uso portanto “indignação”, que é politicamente correto, satisfaz os meus desgostos e contribui para a possibilidade de alguma mudança.
Os nossos colonizadores portugueses, sua postura dominadora exploratória, seus interesses desumanos e sua incompetência administrativa têm sido evidentes na história de muitas vidas e países ontem, hoje e sei lá eu por quanto tempo.
No Brasil, exploraram e mataram centenas de nativos indígenas sob o argumento exploratório desrespeitoso. Fundaram vilas e cidades colocando cidadãos de índole duvidosa para “administrá-las” de forma a atender o enriquecimento da coroa. Como não sabiam - e nem queriam saber – desenvolver trabalho braçal pesado, cruelmente escravizaram cidadãos africanos, impondo-lhes língua, cultura e credo, da forma mais animal e aterrorizante possível,  que nem Hitler teve competência carnívora para apagar. Forjaram uma independência, pois não conseguiam mais “dar conta” de um país grande e diverso como o nosso, venderam-no para a Inglaterra e deixaram em nossas terras um legado de problemas, injustiças sociais, crueldades e baixarias que amargamos até hoje.
Em Timor-Leste não foi diferente. Mesmo estando neste território desde 1560, pouco fizeram para, de alguma forma, contribuir para os nativos timorenses, se é que era necessária alguma contribuição, visto que, dentro de sua lógica de vida e necessidades, vivem muito bem, apesar de nós “malaes”. Enfim, aqui a Igreja Católica também foi usada para - e fez uso da - oportunidade colonialista. Usando as preces em língua portuguesa, auxiliaram a disseminação do idioma e ampliaram seus domínios religiosos. Enquanto a política cruel feria, explorava e matava, a “bondade” cristã acalmava corações e almas em língua portuguesa, idioma europeu mais evoluído e de prestígio. Após pequenas e desimportantes ações educacionais, somente no século XX, depois da década de 60, há um empenho maior do governo português – leia-se ditadura Salazar – em fundar escolas, trazer missionários e, claro, soldados, que contribuíram para o uso do português por cá. Conseguiram até a proeza de elevar a taxa de alfabetização – em língua portuguesa, é claro! – de 24%, em 1971, para 77%, em 1974. Quando resolveram sair do país, deixarem este ao léu, frágil e sem maiores estruturas governamentais, o que favoreceu o domínio devastador da Indonésia, em 1975, que, entre outras insanidades, proibiu o uso do português em território nacional, mas isso merece outros textos de comentários meus. Detalhe: descobriram petróleo por aqui neste meio tempo!
Hoje o que vemos é um cenário que só não é caótico porque a lógica aqui é bem outra da nossa ocidental, e eu sou uma pessoa otimista. Os portugueses ainda se acham no direito de se indignar com a dificuldade de aprendizado de língua portuguesa dos alunos timorenses. Bem, juntem o que escrevi anteriormente com a situação política-econômica em que Portugal se encontra e podemos compreender bem a situação. E que se abra aqui um parênteses com a fala do primeiro-ministro atual de Portugal dizendo que o desemprego em terras lusitanas poderia ser uma oportunidade para os cidadãos portugueses e que estes deveriam imigrar e procurar outros campos de trabalho (!!!). Bem, isto é fato! Se Portugal estivesse muito favorável, não haveria por cá tantos portugueses.
Os brasileiros, por sua vez, ainda que com boa-vontade, nem sempre se ajustam a essa realidade difícil, quer por desconhecimento, quer por intolerância, quer por falta de vontade. Os estímulos sociais em Timor para o uso do idioma ainda são tímidos perto do que deveria ser, no entanto as prioridades governamentais são outras e com isso concordo plenamente.
Já o governo brasileiro não me parece muito interessado em atuar por aqui visto que os interesses do Brasil hoje são outros, parece-me que de colônia explorada o Brasil quer assumir um papel de Imperialista no contexto internacional, ainda que a política interna, ao meu ver, seja uma das melhores que já tivemos, estando longe, é claro, de ser o que realmente precisamos.
E eu, ironicamente, estou aqu,i em Timor-Leste, na pretensão de contribuir de alguma forma para o ensino de Língua Portuguesa em nível universitário. Meus amigos, esse é o meu pretexto, porque o meu papel de educador transcende esses pormenores. Mas meu caráter crítico analista a todo dia me traz à mente a seguinte questão: “Qual a real importância da Língua Portuguesa em Timor-Leste?” Trabalho pensando nisto, ouvindo meus alunos, conversando com as pessoas, dando-me de corpo e alma a elas, tendo as energias sorvidas por um povo que ainda dorme sob os pesadelos de uma guerra que não foi esquecida e, diga-se de passagem, não se quer esquecer, pois as atrocidades cometidas ainda não foram totalmente investigadas e seus responsáveis chamados a responder por elas.
Uma coisa eu lhes digo, não defendo jamais a ideia de culpa, mas sim de responsabilidade. Somos responsáveis pelo que fazemos e deixamos de fazer – o que é uma forma de fazer – e devemos sempre ser lembrados por isso. O esquecimento não traz aprendizado, assim como a verdade nos mostra os caminhos que melhor nos auxiliaram.
Portugal e Brasil, cada um em sua particularidade, não assumiram suas responsabilidades e nem encontraram verdades que possam estar consonantes com as verdades timorenses e isso me faz questionar sempre o que aqueles países fazem por aqui, quais as suas reais contribuições para este povo, sob a perspectiva deste povo e não sob suas visões egoísticas. Teria respostas, mas guardo-as para mim, são minhas verdades, cada um tem a sua!

domingo, 13 de maio de 2012

Lição de patriotismo

Uma outra questão importante a ser discutida com base nas experiências que estou tendo por cá diz respeito ao sentimento patriota e nacionalista do povo timorense. Diferentemente de nós, brasileiros, esse povo construiu a duras penas a sua pátria. E entendam, não estou eu aqui a dizer que nós não suamos a camisa em nosso dia a dia pelo amor ao nosso país (alguns não têm mesmo!) O que acontece no Brasil é mais uma luta pela sobrevivência e uma gana por acúmulo de riquezas desnecessárias.
O que vejo aqui é algo bem diferente! Lutaram por tornarem-se independentes de Portugal – e sabemos bem do caráter exploratório desse domínio e da incompetência administrativa que os companheiros portugueses possuem (vide Macau, Goa, Angola e nós mesmos) – sofreram invasões na 2ª. Guerra Mundial servindo de ponto estratégico para ataques japoneses e, quando se descobre petróleo por cá, sofreram o massacre da ocupação indonésia comandada pelo monstruoso Suharto. Para restabelecer a Independência que já possuíam e assumirem o seu país, os timorenses pagaram com sangue e destruição, dor, lágrimas, sofrimentos sem dó... E há 10 anos começaram tudo do zero.
O hino timorense, já publicado neste blog, mostra bem essa luta... a bandeira, com um triângulo preto, que representa o obscurantismo  a ser superado, um triângulo amarelo, que representa os traços do colonialismo, marcas de um passado, e a base vermelha que toma mais da metade da bandeira, representando a luta – com muito sangue – pela liberdade do país, tendo como guia a estrela – branca – da cor da paz que eles tanto anseiam. Nos primeiros minutos do dia 20 de maio de 2002, a bandeira da ONU foi descida vagarosamente enquanto que a bandeira oficial do país foi hasteada, sob lágrimas de toda a multidão que ali se aglomerava feliz, saudosa de parentes e amigos que deram suas vidas por aquele momento.
As cicatrizes dessa guerra não sararam ainda, mas as mágoas e dores foram convertidas num sentimento que denota a ideia de que, apesar de ter sido do jeito que foi, Timor-Leste agora é dos timorenses, e com todas as dificuldades existentes, são os timorenses quem conduzirão o seu país. Aceita-se ajuda internacional, mas no leme quem capitaneia são os interesses deste povo, pois já foi duro demais deixar o país nas mãos de quem não soube o que é respeito e dignidade humana.
Com essas palavras, fica bem fácil entender porque este mês de maio é tão importante para este povo, porque enfeitam suas casas, prédios, carros, ruas, vestem camisetas com a bandeira nacional, a qual está hasteada em todos os lugares possíveis. Nem que seja de forma bem rústica e simples, a alegria deste povo em sustentar um símbolo que muito significa para o povo timorense. Uma conquista, uma dor, um orgulho... um misto de sentimentos e emoções de um povo que não canta seu hino em copa do mundo, porque não possuem time de futebol... que não faz passeata com caras pintadas, porque seus governantes, ainda que a nós não pareçam os ideias, são aclamados popularmente e apoiados por todos... um país que não proíbe seu povo de usar sua bandeira e cores nacionais como nos aconteceu no período da ditadura... um país que é pobre sim, mas que não há fome, pois o sentido de economia solidária e agricultura familiar funciona sem necessidade de reforma agrária, movimentos sem-terra, coronéis latifundiários escravocratas e desonrosos políticos e suas leis ilícitas e desumanas... É um país com poucos recursos materiais e grandes potencialidades humanas e as religiões, fortes e mais que presentes, são um refresco para a dor e um alento para a esperança, não um afronta à organização política, ou se aventurando a manipular meios de comunicação, opiniões e leis por conta de seus interesses próprios, assumindo uma nova forma de colonialismo religioso...
Meus queridos, vivendo isso tudo, não há como entender que no Brasil, o cheiro patriota que possuímos tem sido responsável por reeleger incompetentes e manter esse carnaval que aí está há anos, cuja quarta-feira de cinzas não chega nunca, pois é necessário que todos acordem cedo pra trabalhar como máquinas pois, afinal, estamos construindo o Brasil do Futuro!
Aqui no Timor, um país perdido num passado distante, sinto-me anos-luz a frente e hoje entendo o significado de patriotismo!
Loron diak hotu-hotu!